Carreira após a maternidade

Por Tamiris Monteiro

Para a maioria das mulheres, o nascimento do filho é um momento supremo da vida, mas perto do fim da licença maternidade muitas dúvidas começam a assombrar e angustiar o coração das mamães. “Com quem devo deixar meu bebê?”, “Como vou continuar a amamentar?”, “Será que creche é uma boa ideia?”. São apenas alguns dos muitos porquês que surgem nesse período e, dessa forma, voltar ao mercado de trabalho pode ser um problema.

De acordo com Renata Moraes, fundadora da empresa ImpulsoBeta, boa parte das mulheres passa pelos mesmos dilemas. “O que acontece é que elas refletem muito sobre suas prioridades na vida durante os primeiros meses do filho, sentem que o bebê precisa tanto delas que querem ter mais flexibilidade, questionam se têm um trabalho que realmente é interessante, preocupam-se com as possibilidades de ascensão profissional, ainda mais em um momento em que as contas da família aumentam. No entanto, é um mito dizer que as mulheres perdem o interesse pela carreira após os filhos. O que acontece é que se a carreira não ia bem, isso fica evidente e elas têm vontade de fazer uma mudança. O que também acontece é que existe ainda preconceito com mulheres mães, o que gera nelas o receio de passarem a ser tratadas de forma diferente no retorno da licença”, explica Renata.

Mas as dificuldades não se limitam aos questionamentos. Também existem os obstáculos de cunho íntimo, como, por exemplo, reaprender a ter um espaço apenas dela ou confiar em outras pessoas para cuidar do filho. Contudo, de acordo com Renata, até mesmo essas questões poderiam ser mais facilmente resolvidas se as mulheres não tivessem tantos impedimentos externos. “O Brasil não tem uma rede de creches que realmente suporte a mãe trabalhadora. A mulher que não tem condições de pagar por cuidados com seu filho pode enfrentar uma grande dificuldade de encontrar uma creche que realmente lhe permita voltar ao trabalho com tranquilidade”, destaca.

Outro fator é a resistência que muitas empresas ainda vivenciam em relação à profissional que se torna mãe. “Baseados na crença de que essa mulher não será mais tão disponível ou ambiciosa, às vezes os gestores a excluem de boas oportunidades sem sequer questioná-la”. E ainda há as empresas que não têm flexibilidade para lidar com esse início desafiador do retorno da mulher ao trabalho. “Muitas mulheres sentem-se excluídas, relegadas a papéis secundários e desvalorizadas ao voltar ao trabalho. Parte dessas pede demissão, não porque quer ficar integralmente com o filho, mas porque perde a vontade de trabalhar num lugar que a trata com indiferença”, pontua.

Yes, we can

Até aqui já deu para perceber que existe mais dificuldade do que facilidade no caminho, mas os tempos mudaram e a luta da mulher por espaço no mercado de trabalho tem mostrado que a ala feminina não está de brincadeira. De fato, não há muito o que fazer se não arregaçar as mangas e ir à luta, mas o bacana é que hoje existem muitas iniciativas, privadas e públicas, que podem ajudá-las a encontrar uma diretriz.
É o caso da própria ImpulsoBeta, administrada por Renata. A empresa surgiu, em 2014, com o objetivo de apoiar mulheres a chegarem mais longe em suas carreiras. “Isso é bom para elas, para a sociedade e para as empresas. Também temos a missão de ajudar as empresas a usufruírem do talento feminino para alavancarem seus negócios. Para isso, temos programas de desenvolvimento profissional e também programas de mudança organizacional que promovem práticas de diversidade de gênero, como cursos, programas de mentoria e diagnóstico de oportunidades para as empresas. Felizmente, vivemos um momento transformacional dentro de muitas empresas líderes de seus setores. Tanto que entre nossos clientes, temos grandes companhias, como General Motors, BNP Paribas, Deutsche Bank, Deloitte, Google, Cummins e Bloomberg, entre outras”, afirma.

Igualdade. Será?

Boa parte das mulheres ainda se sente responsável por dar conta da casa, filhos e trabalho, mas é preciso entender que o peso dessas responsabilidades pode e deve ser compartilhado. De acordo com um estudo realizado pela OCDE (Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico, grupo de 34 países que tem o objetivo de desenvolver políticas domésticas), no Brasil, a divisão de tarefas com o lar e os filhos ainda é extremamente desigual. Enquanto o público feminino gasta em média 26 horas semanais em trabalhos domésticos, os homens gastam dez. “Essa desigualdade se repete em outros países. São várias crenças culturais que estão por trás dessa divisão sexual do trabalho que se perpetua nas famílias. O tópico a ser discutido não é como as mulheres podem desempenhar melhor seu papel multitarefa, mas sim como os homens podem passar a ser protagonistas e parceiros dentro de casa. É sobre isso que devemos falar. Não precisamos de estratégias para lidar melhor com uma situação que não faz sentido se estender por mais tempo”, ressalta.