Eu vou ler a carta de quem chamarei Carol.

Tudo bem.

‘’Querida irmã e amiga desconhecida,

Tudo bem com você? Antes de qualquer coisa eu queria dizer que não sou de nenhum Centro de Valorização da Vida, ou quaisquer órgãos regulamentados e diplomados para discutir esse assunto. Não tenho traquejo sociológico, psicológico, filosófico formais para um debate. Então, você tem todo o direito de estranhar a minha disposição em escrever uma carta como esta e endereça-la. Pode questionar, por exemplo, a incapacidade de medir as consequências de um texto mal escrito sobre um assunto tão delicado e, daquilo que teria a intenção de auxiliar, atrapalharia ainda mais os episódios seguintes dessa jornada que chamamos de vida.

Então vou me apresentar: sou a Carol, gosto muito de literatura, nasci em um bairro pobre de Guarulhos e sou negra. Escutei na minha rede social que tenho a probabilidade de morte por violências urbanas a meu favor e cada dia de vida, segundo as emissoras de televisão mais assistidas do bairro, é um motivo para soltarmos rojões. Gosto de tentar ser imoral acima de tudo. Não quero saber o que as pessoas acham ou acharão sobre aquele ou aquilo. Gosto de enxergar aquele ou aquilo como variações do que um dia eu poderia ser e complexidades do que eu não consigo entender. Perco de vista, assim, as chances que pude aprender com um caixa de super mercado ou um skatista da minha idade. Te falo que consegui enxergá-los sem óculos e sem binóculos, o que é difícil quando se trata de meu professor de Literatura e Língua Portuguesa.

Minha cor não me atrapalha, por que vejo nela uma identidade. Gosto de me pensar no mundo como a Njinga, uma das rainhas que passou pela Angola e tornou-se personagem principal de um filme que assisti. Lá ela diz e mostra como fazer para você dedicar sua vida à resistência de um massacre, à sobrevivência de uma comunidade, aos valores de uma terra, à reciclagem de suas jornadas, às expectativas baleadas e às esperanças conquistadas. Njinga viveu sob a mira e a opressão dos portugueses. Sob a dificuldade de entender o jogo político perverso da colonização. Viveu e sobreviveu, vale ressaltar, com o usufruto daquilo que era seu. Para Njinga a vida era uma eterna resistência à submissão a uma grande nação e a grandes potências que não estavam nem aí para sua existência. Que se tinham algum cuidado em interpreta-la, era para subverter dela, aquilo que ela mais guardava e sacralizava: sua liberdade de ir e vir, sua teimosia de não se tornar aos olhos europeus, só mais um escravo colonizado.

Njinga, a rainha da Angola, virou filme porque de alguma maneira não foi esquecida. Você virou conto por que eu não quero que você deixe de ser lembrada. Viva onde for como uma guerreira teimosa e juntas um dia faremos um exército de gente igual Njinga: grande, bonita, bem-educada e bem-sucedida. Siga bem, recupere-se logo.

de uma amiga,

Carol.’’

Inspirado por: https://www.clickguarulhos.com.br/jovem-tenta-suicidio-em-guarulhos/