Cena do Paço Municipal em período de férias é uma tragédia anunciada

Por Luciano Leite*

Todo período de férias a cena se repete: o entardecer no parque junto ao páteo da Prefeitura de Guarulhos fica tomado pelas cores e formatos de pipas e pela agitação de dezenas de meninos, de todas as idades, que competem entre si para provar quem é o “maioral” dos céus, ou seja, aquele que consegue sobreviver ao ataque de outras pipas que se digladiam nos ares guarulhenses. Claro que nas férias ver esse cenário é mais corriqueiro, porém, basta um bom dia de sol, seja final de semana, seja dia letivo, que é possível observar crianças, jovens e até adultos com os papagaios nos ares.

A cena até seria bucólica se não guardasse alguns perigos, que são de conhecimento de todos que conhecem a cena descrita: o de morte que estas crianças e adolescentes estão correndo diariamente dentro do Paço Municipal.

Só o uso de cerol nas linhas que se cruzam nos ares já seria um perigo alarmante que deveria despertar a preocupação de pais, prefeitura, imprensa e todos aqueles que enxergam nestas jovens pessoas o futuro de nossa cidade.

Mas o perigo ainda é maior, muito maior: na batalha diária dos pipas ainda existe a corrida às cegas no meio de uma das mais movimentadas avenidas de Guarulhos, a Tiradentes. Digo corrida às cegas pois quem já passou neste local no período que me refiro já viu crianças de todas as idades correndo desesperadamente com os olhos fixados no céu e desviando, sabe Deus como, dos carros, motos, caminhões e ônibus que seguem apressadamente pela via.

Talvez eu esteja sendo alarmista, afinal, muitos dirão que isto não é importante pois, até onde eu sei, ainda não aconteceu uma tragédia para que os responsáveis por esta situação (nós, os adultos) pensemos sobre como lidar com tudo isto.

Verdade, ainda não temos um ou dois corpos estendidos na avenida para nos preocuparmos. Talvez, se um dia isto ocorrer, os pais, a prefeitura, as escolas e outras instituições parem um pouco pra refletir se não é possível conciliar a necessidade das crianças se divertirem com a nossa necessidade de que eles permaneçam vivos pra construírem a cidade do futuro.

Cidade esta que talvez seja mais humana, receptiva e colorida para todos àqueles que ainda virão.

Luciano Leite é psicólogo, palestrante e consultor de carreira
luciano.leite@bol.com.br