Coerente montagem de O Capital celebra os mais de 40 anos de atividade do Arlequins

Por Simone Carleto 
Praticáveis utilizados com funções cênicas diversas, adereços e figurinos funcionais, atuação precisa e transformação dos atores e atrizes em diversas personagens aos olhos do público, projeções que contextualizam historicamente a cena e estabelecem camadas de interpretação da obra artística: essas e outras significativas características fundamentam a prática do teatro épico-dialético experimentado pelo Arlequins.
O grupo, ligado à importante Cooperativa Paulista de Teatro, explicita seu posicionamento político – não confundir com partidário – tanto no conteúdo como na forma. Aliás esta especulação estética compõe a base de sua trajetória, especialmente em sua mais recente obra, O CAPITAL – Arlequins apresenta Marx, estreada em 2017 em ensaios abertos como o ocorrido em uma atividade cultural do MTST, em Guarulhos, realizada em dezembro.
Para estruturar o roteiro e a dramaturgia com base na obra de Marx, o coletivo estudou os textos durante alguns anos, extraindo dos volumes I, II e III de O Capital material suficiente para expor as bases de seu pensamento facilmente perceptíveis em nosso cotidiano. Com busca de interlocução direta com o público, o grupo se vale da linguagem cômica, proporcionando admirável leveza à densidade das teorias marxistas. Isso sem perder os aspectos balizadores de seu pensamento.
Quem conhece a obra poderá reconhecer a habilidade narrativa do elenco-criador ao traduzi-la. Já as pessoas que conhecerão Marx via Arlequins estarão muito bem apresentadas, considerando o que Walter Benjamin defendeu ao associar o posicionamento político do autor à obra por ele produzida. Nesse sentido, Marx-O Capital-Arlequins então em perfeita consonância.
Em contato com a encenação, humanos que se reconhecerem em parte desumanizados, sentir-se-ão provocados às tão necessárias transformações em nosso tempo.
Quando assisti ao espetáculo, na temporada de junho, não foi possível haver as projeções citadas. Porém este elemento não impede a leitura da peça, que deverá apresentar-se ainda mais completa com esse recurso que se trata de fonte documental. Tal versatilidade da obra confere a ela possibilidades de exibições a diferentes grupos de pessoas em locais diversos, como em escolas e sindicatos, para estudantes e trabalhadores.

Serviço:
O CAPITAL – Arlequins apresenta Marx
comédia épica
Teatro Espaço Cultural Lélia Abramo
Rua Carlos Sampaio, 305 – Bela Vista
Travessa da Av. Paulista – Metrô Brigadeiro
dias 26 de agosto, 02, 09, 16, 23 e 30 de setembro – domingos às 20h30
“PAGUE QUANTO PUDER”
FICHA TÉCNICA
O CAPITAL – Arlequins apresenta Marx
Texto – Éjo de Rocha Miranda e Ana Maria Quintal
Direção – Sérgio Santiago
Elenco – Alexandre Garcia
              Ana Maria Quintal
              Danielle Agostinho
              Fillipe Gomes
Iluminação – Ira Montenegro
Sonoplastia – Miranda
Artes Gráficas/Fotografia – Marisa Quintal
Produção Executiva – Danielle Agostinho
Web designer – Edson Frank
Simone Carleto
Artista pedagoga (atuação e direção), mestre e doutora em Artes Cênicas pelo Instituto de Artes da Unesp. Atriz do Canhoto Laboratório de Artes da Representação (2001 a 2008). Concebeu e coordenou a Escola Viva de Artes Cênicas de Guarulhos (2005 a 2016). Assessora de diversos grupos teatrais. Autora de ensaios e artigos nas áreas de pedagogia, crítica e interpretação teatral.