Coluna do Carleto – 04.01.2019

Vista aérea do buraco causado pelo deslizamento de resíduos no aterro de Guarulhos - Foto: assessoria do vereador Zé Luiz

Problema do lixo pode ser maior desafio de Guti

FELIZ 2019

Enquanto não há uma sinalização do mercado para novas edições de nossas revistas, nosso foco está voltado ao portal Click Guarulhos, por meio do qual pretendo manter minha coluna semanal, às sextas-feiras, além, é claro, dos comentários opinativos que posso fazer em uma ou outra matéria veiculada pelo portal.

Desejo a todos que acompanham meu trabalho no jornalismo local um ano com muita saúde e que o Brasil volte a se desenvolver, possibilitando a todos boas oportunidades.

MAIOR DESAFIO

O ano de 2018 terminou com o que talvez venha a ser o maior desafio da gestão Guti: superar as dificuldades impostas pelo deslizamento de terra no único aterro sanitário da cidade, ocorrido na noite do dia 28 de dezembro. O problema afeta praticamente toda a população guarulhense e não há soluções mágicas para resolvê-lo.

DEVE HAVER CULPADOS

Por mais que se busque atribuir a culpa do ocorrido à natureza e suas imprevisibilidades, o senso comum diz que a empresa Proactiva, ao assumir a gestão do aterro, deveria ter averiguado que a sustentação dos taludes não estava firme quanto necessário. Se tivesse de apontar responsabilidade das que a antecederam, que o fizesse na ocasião, alertando para as medidas que haveriam de ser tomadas. Perícias estão sendo feitas e devem chegar a alguma conclusão. Ou será mais fácil culpar a chuva, o vento, o acaso…

SEM MILAGRES

Cabe registrar que, desde o primeiro momento, tanto o prefeito Guti quanto seus secretários se debruçaram sobre a questão. Mas não há milagres: não será da noite para o dia que as soluções virão.

O CASO É GRAVE

Tanto a Cetesb quanto a Prefeitura procuram minimizar o problema. Nota oficial da empresa estadual citou a expressão “deslocamento de uma célula do aterro”, o que passa a impressão de algo de pequena monta e, talvez por isso, vem sendo usada em todos os releases disparados pela Assessoria de Imprensa municipal. As imagens feitas com uso de drone pela assessoria do vereador Zé Luiz (PT), cedidas ao Click Guarulhos, mostram que a área que desbarrancou é grande e atingiu uma parte extensa da vegetação situada abaixo.

DIÁLOGO

No dia 31, estive na entrada do aterro, onde estava programada uma manifestação popular. Achei que haveria mais gente. O secretário Americano lá estava e explicou a todos sobre as dificuldades de dar respostas imediatas. Foi ouvido por alguns e rechaçado por outros, que chegaram a impedir a entrada e saída de caminhões, por cerca de meia hora. Eu mesmo conversei com alguns manifestantes, argumentando que a paralisação do serviço estava prejudicando toda a população; uma senhora me respondeu que era preciso chamar a atenção das autoridades e da imprensa; afirmei que isso já estava sendo feito e que era preciso ser pragmático, fazer o que trouxesse resultado prático. Só liberaram a passagem quando Americano conseguiu falar com Guti e obteve dele a confirmação de presença, no gabinete, que deveria acontecer na quinta-feira, dia 4, com a participação de cinco representantes da população da região.

Portando cartazes e usando máscaras, manifestantes bloquearam a entrada do aterro da CDR – Foto: Alexandre de Paulo

SEM DIÁLOGO

No entanto, na hora em que a reunião iria acontecer, estavam na recepção do gabinete cerca de 20 pessoas, algumas representando entidades, incluindo o MTST – Movimento dos Trabalhadores Sem Teto. Dado o impasse, Americano pediu que escolhessem entre eles cinco pessoas; não houve consenso. Cogitou-se receber as entidades e os vereadores; populares protestaram. Os manifestantes foram para o lado de fora para decidir o que fazer. Mais e mais GCMs foram chegando, alguns fortemente armados. Soou como intimidação. Concluíram que, ou entravam todos, ou não haveria reunião. Que, se quiser falar com o povo da região, que o prefeito vá à entrada do aterro. É lógico que isso é inviável. O líder do governo na Câmara, Eduardo Carneiro (PSB), ainda sugeriu que os vereadores fossem falar com o prefeito e ouvir dele quais as medidas que foram tomadas. Os parlamentares petistas entenderam que não deveriam, pois estariam descumprindo a decisão coletiva tirada momentos antes.

Manifestantes não entraram em acordo com a comitiva e deixaram o saguão do Paço Municipal – Foto: Alexandre de Paulo

MUITOS GCMs

Argumentei com Americano que não havia necessidade de chamar tantos GCMs, nem que viessem armados. Tinha quase um guarda para cada manifestante. Ele respondeu que não foi ele quem chamou. Um popular me disse que a mensagem que alguém transmitiu à GCM é de que a Prefeitura estava sendo invadida. Alguém errou aí.

INTERESSES OUTROS

Um fator que contribuiu para que a reunião não ocorresse foi a presença do MTST, o que havia ocorrido na manifestação no Cabuçu. Americano perguntou qual a ligação do Movimento com a questão do aterro. Zé Luiz respondeu que há moradores atingidos que fazem parte. Pois, então, que fossem como munícipes e não como entidade.

Fica evidente que, se, de um lado, faltou atitude prévia da gestão Guti para que o deslizamento não ocorresse, há também gente interessada no “quanto pior, melhor”. Ameaçar bloquear a entrada de caminhões no aterro é um crime contra a população de Guarulhos e outras cidades, que têm agora o aterro CDR Pedreira, em São Paulo, vizinho ao de Guarulhos, como única alternativa para despejo de lixo.

PEGANDO CARONA

Se há quem esteja usando esse caso para fazer jogo político contra Guti, vale registrar que o problema caiu como uma luva para os defensores da pretendida expansão do aterro CDR Pedreira para o lado guarulhense. Se não é plausível que queiram trazer lixo de outras cidades para cá, eles agora têm o argumento de que não há outra área para implantar um aterro para receber o lixo da própria cidade, pois um novo teria de ficar 20 km distante do Aeroporto, enquanto o CDR pode, por ser extensão e estar a mais de 10 km do Aeroporto.

ENQUANTO ISSO…

A coleta de lixo domiciliar vem enfrentando atrasos desde o dia de Natal, quando não foi feita. Havia sido avisado que não haveria, mas a Trail, empresa responsável pelo serviço, não deu conta de recuperar o tempo perdido. Como no dia 1º o lixo também não foi coletado, o problema agravou-se e as queixas surgem de todos os lados.

SEM CONTATO

A antiga Quitaúna conseguia equacionar bem essas questões, pois os muitos anos de atividade em Guarulhos fizeram com que conhecesse bem as peculiaridades da cidade. A Trail assumiu as operações da Quitaúna, contratou os ex-funcionários, mas seu gerenciamento tem sido falho, inclusive na comunicação. Seu assessor de imprensa não tem respondido mensagens, o antigo número da Quitaúna não atende e, ao ligar para o número fixo que consta no site www.trailinfraestrutura.com.br, (11) 3352-0200, a resposta é que esse número não existe.

CONTATO COM HORÁRIO LIMITADO

Questionei a Assessoria de Imprensa da Prefeitura sobre a falta de um número pelo qual a população pudesse contatar a Trail e obter informações sobre a coleta. Resposta: “A Secretaria de Serviços Públicos disponibiliza o telefone (11) 2468-7200, de segunda a sexta-feira, das 8h às 17h, para que os munícipes possam informar sobre eventuais problemas com o serviço de coleta de lixo”.

SABESP NA ÁREA

Outro problema que tem gerado inúmeras queixas, dos mais diversos bairros, é a falta de água. A questão é antiga, a Sabesp acabou de assumir a gestão do saneamento básico em Guarulhos. O erro deve ter sido a Prefeitura e parte da imprensa anunciarem a mudança para a Sabesp como algo que permitiria acabar com a falta d’água de imediato. Não há como resolver com varinha de condão, por mais que haja vontade política e experiência técnica para tal. Soluções fatalmente virão, como o anunciado aumento da vazão para a região central e para 45 bairros da região do Pimentas. Mas, é preciso dar tempo ao tempo, até porque, para fazer as mudanças, é preciso interromper o fornecimento em algum momento.

Valdir Carleto