Comemorar, sim. Sem ufanismo, com consciência

Antigamente, éramos um país com técnicos de futebol presentes em cada botequim, na fila do ônibus ou do banco e em cada roda de conversa. Se não bastasse, agora, na era das redes sociais, todos arvoram-se publicar como se fossem jornalistas, opinar sobre leis como se fossem juristas, ditar regras como se fossem legisladores ou, para maior dos pecados, discutir política como célebres donos da verdade.

Viva a liberdade de expressão! Nunca o cidadão comum teve ao seu alcance megafones com tal amplitude: a democrática internet deu voz a todos. Isso é fantástico! Como pudemos viver tanto tempo sem uma ferramenta como essa para fazer ecoar o que pensamos?

Como diria a piada que circulava no tempo em que o general Figueiredo era presidente, “defendo a liberdade acima de tudo e, se alguém for contra, eu prendo e arrebento!”.
A liberdade de expressão há de ser defendida sempre. O problema não é a sagrada liberdade de opinar, mas a exacerbação, o radicalismo. Esteja na pauta uma questão local ou nacional, o que vê são posições extremistas. Basta ver o resultado das recentes pesquisas, que mostram o ex-presidente Lula e o deputado Jair Bolsonaro liderando as intenções de voto.

No âmbito municipal, a mesma coisa. Uns idolatram a gestão do prefeito Guti, acham que a cidade está um tapete, coberto com pétalas de flores, para não dizer que com filetes de ouro. E querem prender e arrebentar os que pensam diferente, não por acaso, aqueles que nada vêm de positivo no trabalho da atual administração, os quais, quando contrariados, partem para ataques pessoais, alguns impublicáveis.

Guarulhos está completando 457 anos desde sua fundação. Entre erros e acertos da atual e das gestões anteriores, cresceu desordenadamente, sem planejamento. A malha viária ficou acanhada, obsoleta. As rodovias que passam pela cidade dificultam a integração dos bairros. A Lei de Loteamentos encareceu os terrenos, tornando-os inacessíveis ao trabalhador de baixa renda. Isso, somado ao custo mais elevado da moradia em São Paulo, fez crescer de forma assustadora por aqui as invasões de áreas, que alguns preferem chamar de ocupações. Ademais, parcela significativa da população despeja lixo e detritos pelas vias públicas, estragando locais que poderiam ser cartões postais.

Meio milhão de eleitores depositaram suas esperanças no jovem candidato a prefeito, que se personificara como o “anti-PT”, partido que ficara 16 anos no poder local e conquistara imensa rejeição. Formado o secretariado, somaram-se talentos e boa vontade com inexperiências e desconhecimentos, tudo isso temperado com boas doses de vaidades pessoais. Com poucos meses de governo, acabou a boa relação do prefeito com o vice, Alexandre Zeitune, cuja figura passou a ser mais incômoda do que a suposta oposição que a gestão poderia ter no Legislativo.

A opinião pública é, por hábito, cáustica em relação à classe política. A esperança de muitos que acreditavam ter elegido um novo Messias se transformou em rápida decepção. Assim, a população quase não vê motivos para comemorar o aniversário da cidade, o que é um absurdo, porque Guarulhos é maior que todos eles juntos.

Temos, sim, muito o que comemorar, independentemente de governos e partidos, e mesmo tendo tantas carências a lamentar. A cidade é feita por todos, é de todos e, portanto, cabe a cada um de nós transformá-la para melhor a cada dia. Ao apontarmos o indicador para um lado ou outro, temos três dedos a apontar para nós mesmos, como a perguntar o quê estamos fazendo para tornarmos Guarulhos a cidade dos nossos sonhos.