Por Tamiris Monteiro
Fotos: arquivo pessoal e divulgação

Muitos mistérios circundam os sonhos e, embora o assunto penda para o lado místico, sonhar é um evento biológico estudado e explicado pela ciência. Para se ter ideia do quanto o tema é complexo, estudos apontam que o fenômeno acontece desde o período uterino, mas nessa fase o bebê ainda não apresenta maturidade cerebral suficiente para criar enredos, memorizá-los e organizá-los com formato de linguagem, por isso, não é possível lembrar de nada. A classe científica acredita que apenas por volta dos cinco a sete anos é que seja possível elaborar e descrever sonhos com enredo, frutos de memórias, emoções e expectativas.

Matéria Como a ciência analisa os sonhos | Click GuarulhosMas, afinal, por que sonhamos? De acordo com o neurologista Leandro Teles, os sonhos são importantes no processo de organização de memórias, sendo construído, predominantemente, por experiências recentes, vividas no dia ou em dias anteriores. Também para atribuir grau de relevância e irrelevância de eventos recentemente vividos, auxiliando na organização da memória que busca um lugar no armazenamento de longo prazo. “Além disso, funcionam como um simulador emocional, no qual somos apresentados a situações anedóticas e criativas e desenvolvemos nosso padrão de integração cognitiva e o controle dos nossos sentimentos”, explica.

Apesar de ser uma importante ferramenta no processo de organização de memórias, nem sempre os sonhos acontecem com uma história linear, mas para isso também há uma explicação científica. “Sonhos são uma colcha de retalhos de memórias, compostos por memórias recentes, do dia anterior ou de poucos dias antes do evento. Associadas a essas memórias recentes, existem aspectos de memórias antigas, principalmente as emoções mais intensas. Dessa forma, esses retalhos de memória são costurados com uma linha francamente emocional, gerando histórias altamente criativas, estranhas e curiosas. A falta de crítica que parte dos lobos frontais sobre tais pensamentos é que gera essa falta de congruência entre personagens, ambientes, tempo e relações”, afirma o neurologista.
Durante o sonho, o cérebro mostra-se bastante ativo e focado para aspectos internos e muito pouco perceptivo e reativo ao ambiente. Por conta desse mecanismo, áreas envolvidas com emoções e memórias, como hipocampos e hipotálamo, ficam mais ativas. Já as áreas envolvidas com a crítica, juízo e raciocínio lógico ficam menos estimuladas. Isso também explica o porquê dessa “colcha de retalhos de memórias” mostrar-se com forte aspecto emocional, sem nenhum comprometimento lógico, sequência temporal, limitações temporais ou imposições morais.

Outra curiosidade é o tempo de duração de um sonho. Segundo Leandro, cada episódio dura cerca de 20 minutos, podendo haver variações. No entanto, existe a po ssibilidade do tempo real do sonho e a impressão do tempo do enredo serem completamente diferentes. “Como acontece com os elementos da história, para o cérebro também não existe comprometimento da evolução temporal com a realidade na hora que sonhamos. Como o sistema de fixação de memória está em um modo alternativo de fixação, a sensação de passagem de tempo fica muito menos objetiva”, pontua.

 

Curiosidades

Existem estágios do sono específicos para que os sonhos aconteçam?
Sim. O sono tem uma estrutura marcada por fases. Os sonhos ocorrem na fase de sono REM, pois essa é a fase em que o organismo está com a musculatura bem relaxada, com franca redução de percepção do ambiente, mas com boa atividade mental.

Por que nos lembramos de alguns sonhos com clareza e de outros não lembramos?
A maioria dos sonhos acontece, mas não são lembrados. Para recordar um sonho é preciso acordar dentro dele ou com proximidade dele. Lembramos mais de sonhos ocorridos na segunda metade da noite, até porque são mais longos, estruturados e geralmente mais próximos do nosso despertar. Além disso, lembramos de sonhos que são interrompidos abruptamente, com componente emocional mais forte ou com enredo mais instigante, com alguma memória. Existe variação genética entre as pessoas, que faz com que algumas lembrem mais e outras menos de seus sonhos. Essa característica também pode variar durante a vida, a depender do estado emocional, do horário de despertar, etc.

Matéria Como a ciência analisa os sonhos | Click GuarulhosPor que existem os pesadelos? E por que eles, geralmente, nos causam medo?
Sonhos são regados por intensos aspectos emocionais. Vivenciamos todo e qualquer tipo de emoção em um sonho: alegria, raiva, medo, tristeza, pavor, solidão, frustração, sensação de morte, compaixão e outros. Trata-se de uma mistura de memórias costuradas com emoções e sentimentos. Quando a emoção é negativa, de dor, perda e sofrimento, dizemos que houve um pesadelo, uma experiência por vezes pavorosa e desafiadora. Mas dentro do espectro de emoções do ser humano, é fundamental aprender a lidar com as emoções negativas, saber vivenciar o medo, a apreensão, ansiedade e perdas. Faz parte do desenvolvimento de todo ser humano. Sendo assim, os pesadelos são sinais de saúde e normalidade. Ocorrem de forma eventual, são mais frequentes na infância e geralmente não levam a maiores problemas. Agora, em casos de pesadelos recorrentes e que geram perturbações na qualidade de vida, o mais recomendado é procurar um profissional que possa avaliar o problema.

Por que em alguns sonhos temos a sensação de não conseguir fazer o que queremos, como correr ou gritar, por exemplo?
Nos sonhos somos o personagem principal e também o autor do enredo. Dessa forma, às vezes nos colocamos em situações específicas e nem sempre nosso personagem tem todos os recursos físicos e mentais para resolver determinada situação. Isso é fundamental para criar o conflito necessário para a simulação emocional proposta. Podemos, muitas vezes, nos sentir incapazes dentro do sonho, desarmados, frágeis, paralisados, assim como podemos nos sentir poderosos, invencíveis e plenamente capazes. Tudo é fruto de aspectos da nossa vivência, autoestima e da motivação mental específica de cada enredo.

 

Confira os outros temas abordados na capa desta matéria da RG:

Introdução: por um sono de qualidade
Distúrbios do sono

Sonambulismo: dormindo acordado
Paralisia do sono
O lado sobrenatural dos sonhos