Num mundo em que as novas notícias surgem a todo instante, pode ser muito difícil conseguir distinguir o que é verdade do que é falso. O fenômeno é tão comum, que muitas vezes os próprios propagadores da notícia ou da alegação falsa em questão não sabem que aquilo não é verdadeiro.

Ser enganado por esse tipo de ficção fabricada não torna alguém melhor ou pior. Isso simplesmente significa que essa pessoa precisa se equipar com ferramentas melhores contra esse tipo de coisa.

Foto por Thomas Hawk/ CC BY 2.0

Maria Konnikova é jornalista, psicóloga e embaixadora da PokerStars. Nos seus livros “Mastermind: Como Pensar Como Sherlock Holmes” e “The Confidence Game: The Psychology of the Con and Why We Fall for It Every Time” (O Jogo da Confiança: A psicologia dos Golpes e Porque nós Sempre Caímos Neles, em tradução livre), ela compartilha diversas dicas sobre como identificar mentiras.

Konnikova estudou desde pequenas fraudes até esquemas de Ponzi multimilionários e descobriu que as principais técnicas dos vigaristas e trapaceiros envolvem manipular as emoções humanas de maneira maligna, acertando exatamente os pontos sensíveis que fazem com que as pessoas fiquem emocionalmente vulneráveis.

É exatamente dessa forma que as notícias falsas se propagam. A chamada sensacionalista criada pelo autor original sempre envolve algum tema que mexe diretamente com as emoções do leitor e provoca uma forte reação emocional.

Para completar a armadilha e fazer com que a vítima não tenha tempo de reconhecer que está sendo enganada e seja obrigada a agir ou compartilhar rapidamente, a notícia ou falsidade normalmente também vem acompanhada de um chamado de urgência cuidadosamente fabricado.

De acordo com a autora, nós realmente não evoluímos para detectar mentiras. Ainda assim, a maioria das pessoas gostam de acreditar que é capaz de fazer isso. Isso gera uma assimetria enorme entre a habilidade que as pessoas pensam ter e a que elas realmente possuem.

Sendo assim, a dica número um é ter consciência de como essa tarefa é difícil e não superestimar as próprias habilidades de detecção. Saber da dificuldade da tarefa torna a pessoa automaticamente melhor, porque ela sempre tentará encontrar mais sinais para confirmar se sua primeira avaliação está certa ou não.

Notícias falsas raramente sobrevivem a um segundo olhar mais atento ou a uma simples pesquisa no Google ou nos sites Boatos.org e E-Farsas, ambos existem há anos e contém equipes especializadas em detectar esse tipo de rumor.

Foto por BDEngler/ CC BY-SA 4.0

Outras dicas cruciais de Konnikova são prestar atenção nas emoções e ter certeza de que seu nível de inteligência emocional esteja bem desenvolvido. Além disso, é crucial parar e refletir antes de tomar qualquer decisão para não agir por impulso.

Pode ser difícil saber identificar um mentiroso, especialmente ao vivo. Mas vários tipos de falsidades podem ser facilmente descobertos simplesmente ao pedir para a pessoa que está espalhando a história falsa contá-la alterando a ordem dos fatos.

Isso se deve ao fato de que para guardar uma mentira, a pessoa precisa contar para si mesma uma história em uma determinada ordem de acontecimentos e, devido a maneira como o cérebro humano armazena as memórias, é muito difícil fazer isso com algo que não aconteceu de verdade.

Ainda, se houver uma cadeia de acontecimentos diretamente relacionados dentro da história, todos os elos dela, incluindo a premissa, devem funcionar dentro do que foi contado. Isso significa dizer que se uma parte do que foi dito não bater com o resto, alguma coisa provavelmente está errada ou foi omitida pelo interlocutor.

Todas essas dicas são ótimas para identificar falsidades vindas de um único lugar, mas e quando duas fontes ou pessoas contam histórias completamente diferentes? Nesse caso, uma das melhores ferramentas disponíveis é a famosa Navalha de Occam. Essa regra diz quando existem duas hipóteses capazes de explicar o que aconteceu de maneira igualmente satisfatória, normalmente o correto a fazer é escolher a mais simples delas.

Isso se deve ao fato de que explicações mais complexas necessariamente precisam que mais fatos sejam verdadeiros para que elas também sejam verdadeiras que explicações mais simples, o que faz com que as mais singelas sempre sejam mais plausíveis que as mais profundas.

As dicas acima certamente ajudarão qualquer um na difícil tarefa de detectar mentiras e falsidades, mas o passo mais importante é lembrar que elas existem e não se deixar levar por emoções quando algo assim aparecer.