Por Cris Marques
Fotos Arquivo pessoal
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É inegável que a tecnologia mudou a vida das pessoas. Hoje, com internet, acesso 3G, Wi-fi e aparelhos, como smartphones e tablets, é possível, em um clique, pedir um táxi ou Uber, encomendar o jantar, pagar contas, agendar viagens, conferir no Waze o trajeto menos carregado até seu destino, conversar com alguém que está na sala ao lado ou em outro país… E se as ações possíveis não param por aí, os riscos também não, incluindo exposição exacerbada, suscetibilidade a fraudes e golpes e até vício.

De acordo com Dora Sampaio Góes, psicóloga do Programa de Dependência Tecnológica do Instituto de Psiquiatria do Hospital das Clínicas de São Paulo, viver nessa era hiperconectada traz muitas facilidades, mas é preciso saber lidar com isso. “Se a pessoa deixa de fazer coisas cotidianas para ficar vidrada em algum aparelho, tem algo errado. Bater o carro por estar lendo ou digitando uma mensagem no WhatsApp, deixar de dormir para zerar um game, não prestar atenção e nem interagir com as pessoas ao redor, pôr em risco colégio, faculdade ou trabalho é um problema real de quem vive no virtual”. Além disso, dividir a atenção com o celular enquanto faz outras atividades pode ser nocivo para a saúde mental. “Focar em coisas alternadas é um trabalho imenso para o cérebro, pode parecer que não porque isso ocorre em milésimos de segundo, mas são várias as funções cerebrais exercidas. Sem contar que isso acaba atrapalhando até a forma como as informações são armazenadas, pois, nessa bagunça, os dados não vão parar no lugar certo, o que prejudica até a memória”.

Ajuda profissional

Ela conta que a busca por ajuda normalmente acontece depois da pessoa ter um prejuízo real pelo uso exacerbado de tecnologia, como o término de um relacionamento, a ocorrência de brigas com familiares ou amigos e até a perda do emprego. Mentir sobre o tempo conectado, usar como desculpa um “fui ver a hora” para dar mais uma olhada na tela ou tentar diminuir o uso e não conseguir também são ótimos termômetros para entender que o auxilio é necessário. “O ideal é procurar um profissional da área da saúde, um psicólogo ou psiquiatra, ou grupos que tratem especificamente desse tema, como o nosso. Até porque é comum que esse vício esteja ligado a outros problemas; entre eles, fobia social, depressão ou transtorno bipolar”.

Segunda Dora, o Programa de Dependência Tecnológica surgiu há uns nove anos por meio de um convite do doutor em psiquiatria Cristiano Nabuco, que, na época, assim como ela, atuava em outro ambulatório do Hospital das Clínicas. “Ele veio conversar comigo, pois estava interessado no assunto depois de participar de uma palestra sobre dependência de internet, em um congresso. Então começamos a estudar e ler tudo o que encontramos no meio científico sobre o assunto, para entender quem seria esse paciente, quais suas características e sintomas e, assim, formatamos nosso programa”.

O Programa de Dependência Tecnológica

Para participar do tratamento, feito no HC, em São Paulo, e com duração de 18 semanas, a pessoa precisa ser maior de idade e inscrever-se por meio do site www.dependenciadeinternet.com.br ou telefone 2661-7805, agendar uma triagem para identificar se ela realmente é dependente e, depois de uma bateria de exames neuropsicológicos, participar das sessões de psicoterapia em grupo. “Nosso objetivo é que ela aprenda a usar a tecnologia e conter seus impulsos, até porque não dá para proibir, diferente de quem busca ajuda por causa de álcool ou drogas, que precisa se afastar dessas substâncias. Junto com isso, a gente começa a entender o que acontece na vida emocional dessa pessoa, o que a levou a isso e como desenvolver recursos para ela lidar com as situações da vida de uma maneira diferente que não seja fugir para o mundo virtual”, pontua a psicóloga.

Tecnologia e educação

A popularização das inovações tecnológicas é algo relativamente novo e, para os mais velhos, que cresceram vendo as novidades chegar de forma bem mais devagar, é quase impossível não se render a seus encantos. “A escola negligenciou completamente o uso de tecnologia dessa geração. São pessoas que até tinham computadores em casa, mas não podiam levar isso pra escola, escreviam a mão, no papel; e quando se tornaram adultas, não tiveram nenhum tipo de aculturamento. Esses adventos chegaram para resolver uma série de problemas que todo mundo viveu e agora não tem mais que viver; então ganha status de indispensável”, explica Fernando Domingues, diretor de inovação do Eniac.

Para ele, o maior problema do uso exacerbado é a deseducação. E proibir não é a solução. “O trabalho que a gente tem feito aqui no colégio com os mais novos é mostrar o uso produtivo desses dispositivos tecnológicos. Entre as crianças, o vício maior são os joguinhos; então, como a gente aproveita isso? Traz a tecnologia pro nosso lado, transforma educação em jogo, usa os games para fins educacionais. Assim, o aluno pode, na escola ou em casa, dedicar seu tempo para aprimorar uma nova língua, entender princípios matemáticos, desenvolver a capacidade de escrever códigos, de programar. E com os adultos é parecido, só que dentro de seus interesses; é pensar o que pode ser adicionado de produtivo dentro de seus gostos e necessidades”.

Uso saudável

“Com as crianças e adolescentes, o ideal é, sim, estipular um horário, mas todo conjunto de regras para ser válido precisa ser entendido. Então é preciso mostrar que usar o tablet ou celular na hora da comida é errado, pois ela não repara nem no que está ingerindo, que na rua pode ser perigoso, que ela pode deixar de presenciar algo legal ou importante por estar vidrada na tela”, garante Fernando. Dora ainda afirma que criar empecilhos pode ajudar a diminuir o uso. “Uma pessoa que está fazendo regime não deve comprar sorvete, não que ela não vá tomar por aí, mas é melhor não ter em casa. Então, para estudar ou ler, procure deixar o celular longe, com a tela para baixo e sem avisos sonoros ou vibratórios. Quando for jogar, estipule um tempo máximo para aquilo e acione o despertador. Quando for dormir, não leve nenhum aparelho para o quarto. Já para os menores, a maior dica é que os pais sejam modelos e ensinem, instruam e monitorem”, finaliza.

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