Jogo para crianças com Síndrome de Down

Por Amauri Eugênio Jr.

De que adianta uma pessoa estudar tanto, se ela não compartilhar o conhecimento adquirido na vida ou usá-lo para fazer algo útil para a sociedade, não é mesmo? Pois bem, esse foi o ponto de partida para Ovídio Netto, que queria fazer algo útil quando iniciou o mestrado em engenharia biomédica, em 2009. “Eu queria fazer algo que contribuísse com a sociedade e de que pudesse me orgulhar em poder ajudar, e não apenas um projeto que me desse o título de mestre”, conta, ao explicar como chegou à proposta de seu projeto. “Ao pesquisar, soube que o número de nascimentos de crianças com síndrome de Down era maior do que eu imaginava. A cada 600 nascimentos, uma criança tem Down. Com isso, eu os escolhi por poder ajudar mais gente.” Assim, ele decidiu fazer um site voltado ao aprendizado dessas pessoas.

Próxima fase
Após a definição do mote do projeto, o principal desafio foi levantar os requisitos necessários para fundamentar o jogo. Ou seja, entender as maiores dificuldades que as crianças tinham no cotidiano, para o software ser útil. Contudo, para poder testar os jogos do site, ele teve de passar pelo comitê de ética da universidade em que ele era mestrando. “Essa fase foi bem demorada, pois eles são muito criteriosos e querem ter certeza que o software em momento algum criaria qualquer constrangimento para as crianças em possíveis erros, entre outras coisas”, detalha.
Vamos jogar?
O jogo em si é bem simples. Primeiro, a pessoa com Down [guarde esta informação: não é só criança que pode jogar] escolhe o gênero da personagem com a qual jogará e, a partir disso, deverá escolher alternativas oferecidas em uma situação no game para dar andamento ao jogo. Por exemplo, no caso do garoto, ele está em seu quarto e, a partir disso, ele deverá fazer tarefas de um dia de descanso – por exemplo, dormir, brincar e assim por diante.
O jogo só terá andamento se a alternativa correta for escolhida e, caso ele faça outra opção, ele voltará às alternativas até acertar. Nisso, ele vai perceber que não pode comer no quarto ou na sala de estar, ou que, antes de brincar, ele deverá lavar as mãos, escovar os dentes e alimentar-se, entre outras obrigações cotidianas. Ou seja, ele assimilará o que pode ou não fazer por meio da repetição.
As crianças com Down têm dificuldade maior para memorização de sequências. Por isso, entidades como a Apae (Associação de Pais e Amigos dos Excepcionais) disponibilizam cartazes nas paredes para ajudá-las em sequências do cotidiano. Contudo, nem sempre esse método é aplicado em casa e é essa lacuna que o software visa a preencher. “A ideia do software é que a criança se sinta parte do ambiente e, quando estiver jogando em casa, ser como se ela estivesse na Apae ou outra instituição especializada”.
Foi mencionado antes que o jogo não tem faixa etária definida. Vamos lá: o que prevalece é a idade cognitiva, que diz respeito ao desenvolvimento intelectual. E o mentor do software pode falar com conhecimento de causa sobre a “jogabilidade”. “O projeto começou em 2009, quando eu não tinha ninguém no meu ciclo de amizades ou familiares com síndrome de Down. Em 2012, conheci a minha namorada justamente na semana que defendi o mestrado, e ela tem uma tia, chamada Nilza Aparecida (foto), que tem 51 anos e adora jogar [no software]”, pontua Ovídio.

Próxima etapa
Ovídio está aprimorando o jogo durante o seu mestrado, que está em andamento. O objetivo é criar usuário e senha para o jogador, para haver feedback com estatísticas de aprendizado e melhoria da pessoa, assim como estabelecer níveis de dificuldade, que podem variar de acordo com o indivíduo.

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