Constelação familiar: a terapia de resgate do amor

Por Tamiris Monteiro
Fotos: Rafael Almeida e arquivo pessoal

Já imaginou que muitas confusões e dificuldades pessoais e profissionais podem estar relacionadas com o que seus pais ou seus antepassados viveram? Pois é, pode parecer bobagem, mas se pararmos para pensar, somos o resultado da educação, valores e crenças que nossa família carrega por gerações. Dentro desse sistema familiar, em que desconhecemos o histórico por completo, também existem acontecimentos felizes e trágicos.

A terapia conhecida como constelação familiar, desenvolvida pelo psicoterapeuta alemão Bert Hellinger, trabalha com base nas heranças deixadas pelos nossos ancestrais. Bert partiu do princípio de que, assim como somos originados pela aparência dos nossos familiares, seus dons e outras características, também é possível repetirmos situações de perdas, sofrimentos, doenças e outros.

Essas heranças – ou carga morfogenética – podem ser responsáveis por determinados transtornos que vivenciamos. Por exemplo, quando temos algum comportamento como violência, ciúme, vício, sentimentos de depressão, muitas vezes podemos estar identificados com um membro da família desta ou de outras gerações, sejam essas pessoas vivas ou mortas.

“A constelação busca dentro do paciente, onde existe um bloqueio, encontrar uma frequência em sintonia, em que ele não consegue soltar determinados padrões da sua vida. Podemos usar, por exemplo, o caso de uma pessoa que tem algum trauma ou alguma frequência em relação a relacionamentos afetivos. Ela até tem alguns relacionamentos, mas não vingam. Com a constelação familiar, podemos olhar o que ela traz interna mente que a impossibilita de se realizar dentro desse contexto”, explica a psicóloga Izabel Cristina Barata, da Constelar Portal de Saúde e Bem-estar.

Com o objetivo de identificar e resolver os conflitos que advêm do sistema familiar, a constelação tenta mostrar ao paciente a resolução das suas angústias, através de sentimentos e atitudes simples, como o amor, respeito, pertencimento e hierarquia. “As pessoas que vêm participar da constelação familiar estão dispostas a serem transformadas e essa cura acontece internamente. Geralmente, quando num determinado contexto o paciente vem movido por julgamentos, raiva e indignação, e a pessoa aprende a livrar-se disso, ela passa a ter um olhar amoroso sobre aquilo que aconteceu com aquela força ruim. Quando você tem a possibilidade de olhar o tamanho da dor, do sofrimento ou do desajuste que houve atrás da sua história, você também fica mais livre para parar de julgar e aceitar com amor a história de onde você veio”, afirma.

Como acontece?

Normalmente, o profissional capacitado para o atendimento conversa com o paciente e nessa conversa tenta identificar em quais aspectos ele deseja melhorar. “Durante essa conversa, já vamos sentindo o cliente e fazendo algumas perguntas. Muitas vezes o paciente chega com a ideia de que o problema é o trabalho, mas identificamos que pode ser outra coisa, como a saúde. É possível identificar apenas pelas expressões corporais da pessoa o que ela está vibrando, e não só o que a caixinha do racional mostra”.

Após essa conversa, através de um cenário vivo, como se fosse a cena de um filme, o cliente passa a apontar para algumas pessoas que irão representar alguns papéis, dentro do contexto exposto. “Por exemplo: colocamos uma pessoa para representar o cliente, uma pessoa para representar seu amor, uma pessoa para representar seu pai, sua mãe e assim por diante, como uma espécie de teatro mesmo. Dentro dessa cena, mostramos para o cliente onde pode ter algo que ele até então não tinha visto”, diz.

Segundo Izabel, as pessoas que ajudam nas sessões, geralmente, já constelaram e já entendem os resultados que a terapia traz. “Participam na intenção de ajudar aqueles que vêm constelar. O tempo todo temos um campo de gratidão, amor e respeito agindo nesse grupo”, avalia. Ainda de acordo com a profissional, uma vez feita a constelação familiar, deve-se esperar pelo menos de seis a oito meses para constelar o mesmo problema, e de três a quatro meses para constelar outro foco. “Esse intervalo é necessário, pois acredito que nesse meio tempo aconteça toda uma transformação sistêmica interna que precisa ser respeitada e alinhada”, finaliza.

Regressão: uma volta em busca do progresso

Traumas, dificuldades, receios e medos nem sempre estão calcados no agora. Muitas das dificuldades que enfrentamos podem originar-se em outros momentos da vida, como durante a fase em que somos bebês ou na infância. Para tentar identificar esses problemas, fazer regressão pode ser um caminho. O psicólogo Romildo Ribeiro de Almeida, pós-graduado em psicologia analítica e especializado em hipnose e hipnoterapia, explica que a regressão é uma abordagem usada por psicólogos que lidam com queixas relacionadas a traumas do passado, cujas causas estão reprimidas no nível inconsciente. Já o processo para fazer com que a pessoa consiga regredir acontece por meio de técnicas específicas, que alteram o estado de consciência, possibilitando induzir o sujeito a relembrar memórias de fatos passados, desde o útero materno.

“A regressão é sempre indicada quando o indivíduo quer compreender melhor o seu passado, sobretudo a influência que os seus pais tiveram em sua vida. É surpreendente ver uma pessoa em estado normal relatar que teve um péssimo relacionamento com um dos genitores e, quando é convidado a falar do pai ou da mãe em estado de transe, relembra que esse relacionamento não foi tão ruim assim e que teve até bons momentos compartilhados”, diz o psicólogo.

De acordo com Romildo, ao fazer a regressão de idade, o paciente consegue “acessar” suas memórias somente até o sexto mês de gestação. “Cientificamente, antes do sexto mês não é possível ter consciência de nenhum acontecimento, visto que o processo de armazenagem de fatos coincide com um estágio do nosso desenvolvimento conhecido como mielinização. Nessa fase, os neurônios da parte externa do cérebro são envolvidos por uma substância chamada mielina, formando uma camada cinzenta que compõe o córtex cerebral. Conscientemente, só conseguimos lembrar de acontecimentos da nossa infância a partir dos dois ou três anos de idade”, esclarece.

Considerado um processo cognitivo consciente, o paciente que faz a regressão deve, após a sessão, recordar-se de todos os momentos relatados para o psicólogo. “Do contrário, não teria fins terapêuticos e nem resultados efetivos e duradouros”, avalia Romildo. Outro detalhe é que não há como definir se o paciente fará uma ou mais sessões regressivas, pois a terapia é feita como parte de uma psicoterapia cuja duração pode variar de acordo com cada caso, dependendo de uma série de fatores como o tipo de queixa e a capacidade de insights que cada um tem de compreender o processo.

Também é importante ressaltar que a regressão não pode ser aplicada em qualquer paciente e por qualquer razão. “Só é indicada em alguns casos nos quais o sujeito tem dificuldade de acessar o próprio passado ou existam dúvidas relacionadas a determinados acontecimentos da sua infância. O procedimento não pode ser feito apenas para satisfazer a curiosidade de quem quer que seja. É preciso que haja um propósito, um problema ou uma hipótese em que o uso dessa abordagem vai facilitar a tomada de consciência e proporcionar mudanças positivas na vida da pessoa. Temos de ter cuidado, pois nem tudo que foi reprimido no inconsciente deve ser recuperado. A repressão dos afetos já é uma atitude natural de defesa do nosso psiquismo, mas como toda defesa, às vezes, ela é exagerada, impedindo que fatos importantes sejam acessados, afetando o nosso processo de autoconhecimento. Somente um profissional da área da saúde e com formação específica em hipnoterapia e que, além disso, esteja devidamente habilitado e regulamentado pelo seu Conselho Regional, pode avaliar em que casos a regressão é indicada e utilizar esse recurso com finalidades clínicas e psicoterapêuticas”, avalia.

Como é feita a regressão?

Como toda intervenção de psicoterapia, a regressão é feita em local apropriado, com total privacidade, onde o paciente tenha toda comodidade física para relaxar. Pode ser feita num sofá, poltrona reclinável, tapete de EVA ou mesmo em pé, de acordo com a necessidade da pessoa ou método de trabalho do profissional. “O indivíduo é colocado num estado de transe hipnótico, com leve alteração do seu estado de consciência e é convidado a falar e a refletir sobre algum acontecimento do passado, especialmente da sua infância. Diversas são as técnicas que podem induzir o indivíduo ao transe, como, por exemplo, o uso de música, de pêndulos, técnicas corporais, sugestões verbais, psicodrama, meditação, etc”, explica Romildo.

 

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