Contraponto: professor opina que ocupações são autônomas

Demonstrando claramente que o Click Guarulhos defende a pluralidade de opiniões e o debate lúcido sobre as questões polêmicas, reproduzo artigo do professor Tiago Guerra.

De repente a escola estadual ficou importante

Eu sou um idiota. Trabalhei durante 5 anos como professor do estado. Primeiro na E.E. Cidade Seródio e depois E.E. Santa Lídia, ambas em Guarulhos. Saí em 2014, um pouco triste, mas bastante feliz. Fui ser professor em redes que apesar dos problemas de sempre, valorizam um pouco mais seus trabalhadores do giz.
Nesse tempo que fiquei na rede estadual de ensino um pensamento nunca saiu da minha cabeça: como podemos aceitar que trate desta forma a educação pública. Durante os cinco anos que fiquei enfiado em uma sala com 40 alunos com o barulho ensurdecedor advindo do corredor, convivendo com as situações de violência e violações, enfim, com as dificuldades do dia a dia, esse incômodo não me abandonou. Como poderia imaginar alguém crer que desse jeito estava bom.

Se aos quatro cantos nos fazem acreditar que os tucanos destruíram a escola, o cinismo dos dias de hoje mostra que o petismo está no mesmo caminho. Entretanto isto é ainda um maniqueísmo burro. Desconfio muito se um dia a escola pública foi boa. Muito fácil defender o passado quando tais escolas funcionavam como um filtro para a classe trabalhadora. Selecionando os “melhores”, expulsando os “piores”. O fato é que quando a escola pública se tornou de fato pública, ela se metabolizou num espaço de contenção e disciplinarização juvenil no qual os professores para não ficarem mal na foto dizem para si mesmo “sou feliz, dá para aguentar”, “faço a diferença”, entre doses de Prozac e Rivotril. A direção e a gestão clamam “por favor, não me tragam alunos!!”. E os alunos, os violentados de todas as maneiras, conciliam seu descontentamento e infelicidade com intensidade febril e bruta, sobrando assim para todos.

Surpreende-me que em um movimento como este organizado por alunos das escolas públicas fiquemos preocupados com infiltrações políticas ou ideológicas que possam ocorrer. Oras meu amigo, é a política. Ela mobiliza e movimenta as ações humanas. Qualquer atividade contra o status quo adquire um caráter político naturalmente. E vai produzir também suas contradições, como por exemplos os oportunistas de sempre. De direita e de esquerda, principalmente.

Quando nos defrontamos com elementos que fogem ao senso comum, procuramos as respostas de sempre. Porém a verdade é cortante como lâmina na carne: a escola pública como referência social e cultural há muito tempo está abandonada. Ela não se constitui como centro da vida comunitária de um bairro. Ela forma cidadãos tentando mostrar que o porrete e a ordem são as condições sine qua non para ser feliz.

Perdoem-me, mas os poucos exemplos são exceções e resistências.
Depósito e contenção de pessoas a escola se tornou nos últimos anos. A margem da vida social e sob a inanição do estado, a não ser dos burocratas pedagógicos que insistem por meio de planilhas e estatísticas defecar suas certezas e diagnósticos, cercadas das purpurinas e paetês, amparado pelo servilismo dócil de professores e dirigentes.

Muitas vezes as coisas não são tão óbvias. Este movimento foge a qualquer explicação simplista, pois ele não foi orquestrado por direções partidárias ou sindicais. Sim, por alguns alunos que tomaram contato com manuais estudantis do Chile explicando como ocupar a escola. Estudantes.

Insisto, todavia, que acreditar que duzentas escolas sejam ocupadas por uma inspiração alienígena é de uma ingenuidade tacanha se por acaso você nunca colocou o pé em uma escola pública. Mas se você é professor e acreditar nisto, desculpe dizer, mas você é um ingênuo.

As ocupações surgiram autonomamente como resultado de mobilizações que começaram em setembro. A esterilidade do estado em atender as reivindicações juvenis aceleraram novas alternativas. Outras táticas.
Mas tem algo profundo a ser revelado. As ocupações são resultados da ausência de uma aprendizagem significativa que sempre bateu a minha porta como docente, mas que fazia questão de ignorar como parte do rebanho; são resultados do abandono da estrutura física que trata como bicho crianças e fazem, nós professores, tornarmos rascunhos mal feitos da nossa profissão; são resultados dos momentos de autoajuda travestida de reuniões pedagógicas; são resultados da empobrecedora sala de professores em que ideias e conflitos são subornados por revistas de Natura e amabilidade hipócrita; são resultados, finalmente, da crise do capitalismo e do trabalho que varre empregos, culturas, experiências e vidas como tsunamis de lamas.

Os jovens que ocupam hoje algumas escolas do estado jogam na nossa cara que a escola não é boa e você professor, crente, esteve cego ou sob o cabresto nos últimos anos. O sistema educacional não funciona, não funcionou e não vai funcionar se pretender de fato dar uma educação digna ao povo trabalhador. Pode continuar a ser o que é: represar as contradições do mundo, esmagar as mentes divergentes e tentar padronizar o diferente.

Talvez mais triste: as ocupações nos atemorizam, pois nos lembram que como professores estamos anos e anos sofrendo em silêncio, já que nunca tivemos coragem de fazer nada, nem ao menos organizar um boicote ao Saresp. Anos e anos agindo como Sísifo carregando a mesma pedra sob o mesmo lombo, rumo ao cume, sabendo que a pedra vai sempre cair lá embaixo.

Ao ver as imagens de como as escolas estão organizadas pelos estudantes, desperta em mim o sorriso de escárnio. O que a auto-organização dos alunos nos mostram também é que a escola seria muito melhor se ficasse desse jeito. Um ambiente de colaboração mútua e de troca. Protagonismo, autonomia e organização coletiva. Os alunos finalmente não seriam mais alunos. Os professores não seriam mais professores. A comunidade seria de fato uma comunidade escolar. E, principalmente, a direção não seria um bando de burocratas temerosos de perder o conforto da sala, da mesa e do computador.
A escola deixaria de ser escola, pois finalmente perderia aquela semelhança das prisões, decantadas por Michel Foucault em seus estudos. Não seria mais responsável por domesticar e disciplinar os corpos, mas produzir de fato a emancipação do pensamento e do corpo, com alteridade e respeito.

Quando dou viva aos alunos, reconheço em mim a fragilidade que vivi (e vivo) nos últimos anos como professor. A carapaça jovem, tenaz, inconsequente e consciente dos estudantes nos indica que o caminho para tornar a escola um espaço melhor passa pela participação direta e autônoma deles. É assim ou ficar no mais do mesmo. A idiotice sob o manto do sofrimento surdo.