Crítica sem spoiler da 2ª temporada da série Westworld

Se tem uma coisa que Westworld faz muito bem desde a sua primeira temporada é, através de roteiros complexos, trabalhar de forma profunda temas acerca da existência humana. Se antes questões como “Somos violentos por natureza?”, “O que nos torna humanos e civilizados?” e “Quais são os limites para as nossas ações?” eram trabalhadas durante o desenvolvimento do relacionamento dos humanos com as inteligências artificiais; agora o segundo ano da série evolui tais temas para algo muito maior.

Ainda com sua linha temporal toda embaralhada, Westworld situa sua segunda temporada logo após os acontecimentos bombásticos do final da primeira. Dolores (Evan Rachel Wood) inicia sua revolução despertando todas as inteligências artificiais que encontra pelo parque, ao mesmo tempo que massacra qualquer humano que cruza seu caminho; Maeve (Thandie Newton) continua na busca por sua filha ao lado do grupo desajustado que reuniu no último episódio da temporada anterior; Bernard (Jeffrey Wright), totalmente deslocado em meio a toda confusão criada, ainda tenta entender seu real propósito dentro do parque; e o Homem de Preto (Ed Harris) continua sua jornada para desvendar os jogos doentios deixados a ele por Ford (Anthony Hopkins).

Com o que foi apresentado em “The Bicameral Mind”, episódio que concluiu o primeiro ano, existia o temor de que a segunda temporada fosse se limitar em apenas retratar a revolução das inteligências artificiais, o que facilmente poderia se tornar um simples e vazio banho de sangue. No entanto, o que Jonathan Nolan e Lisa Joy (criadores da série) fizeram é algo realmente digno de saudação. Eles não só trataram de novos temas (que na realidade são uma evolução natural das questões propostas na primeira temporada) como deram sentido a toda violência, nudez ou aquilo que poderia simplesmente ser considerado banal. O que antes eram assuntos que abordavam a real natureza dos seres humanos que visitavam o parque agora evolui para a questão do livre-arbítrio das inteligências artificiais que se tornam conscientes. Se os humanos têm a liberdade de realizar qualquer tipo de ação, seja ela questionável ou não, porque não os robôs, que agora possuem consciência (uma alma) graças às ações dos humanos? É através desse dilema que Westworld revela seu maior trunfo ao espectador: a capacidade de proporcionar reflexão.

Outra coisa que o segundo ano de Westworld faz de maneira exemplar é ampliar a mitologia de seu próprio mundo. Nessa temporada, fomos apresentados a mais dois parques da Corporação Delos: o The Raj (uma representação fiel da Índia) e o Shogun World (que emula o Japão feudal). Cada um possui suas particularidades, como também evidentes paralelos com o parque que dá título a série. Também apresentam-se mais conceitos à cerca da criação das inteligências artificiais, mostra-se qual é a real intenção da Delos com seus parques e se desenvolve ainda mais o arco narrativo dos personagens, onde Dolores e Maeve passaram pelas mudanças mais significativas. Ambas começam a série de um jeito e terminam essa temporada totalmente diferente. A subversão de suas personalidades, e de seus verdadeiros propósitos em Westworld, é algo fascinante de acompanhar.

Há também os episódios que, apesar de não darem total continuidade ao arco narrativo desta temporada, desenvolvem alguns núcleos individuais, como são os casos de “Akane No Mai” e “Kiksuya”. O primeiro, episódio 5 desta temporada e praticamente todo falado em japonês, é totalmente focado no Shogun World, onde conhecemos novos personagens (que possuem uma relação direta com a história de Maeve), novas dinâmicas e um mundo completamente diferente do que se viu até então. Já “Kiksuya”, o oitavo episódio, aprofunda a Nação Fantasma, tribo indígena que vive no próprio Westworld, no que pode facilmente ser classificado como o episódio mais emocionante, espiritual e belo da série, destacando a ótima presença de Zahn McClarnon como o nativo Akecheta. Detalhe: tal episódio também é praticamente todo falado no dialeto da própria tribo.

É através de muita quebra de expectativa, inúmeras revelações e reviravoltas, um valor de produção riquíssimo e um roteiro apurado que a segunda temporada de Westworld leva o nível das séries de TV a um novo patamar. Uma mistura incomum (ainda assim, muito coerente) de ficção científica e western. Uma série que nos permite classificá-la de diversas formas: O programa do momento; A sucessora de Game Of Thrones; Um intrigante quebra-cabeça televisivo… Enfim, deem uma chance a Westworld, ela merece!