Por Ricardo Celestino

Então vamos chamá-la de Eliana.

Tudo bem.

Eliana tem 40 anos e mora num apartamento próximo da Avenida Vereador Antonio Grotkomwski. Mora razoavelmente bem e escolhe duas ou três coisas para comprar com seu salário de mês, tirando as contas corriqueiras. Gostaria de ganhar mais dinheiro? Sim, claro que sim, quem nunca?!, mas com o que ganha não passa necessidade.

A função que exerce no mercado pouco importa: executa, como muitos brasileiros de classe média, funções repetitivas que oscilam entre o tédio e o contentamento. Talvez, se somar mais dez anos de função, angarie algum stress motor ou mental que lhe renderá uma aposentadoria qualquer. Mantém, também, uma previdência privada, porque as pessoas dizem que é muito importante ter uma previdência privada.

Acontece que ganhou de seu local de trabalho um bônus relativamente gordo diante de sua condição mensal de salário. Vamos supor que se ela ganha R$ 3.000,00 mensais, um bônus de R$ 9.000,00 é uma quantia inesperada, bem-vinda e ostentatória para seus planos mensais. Resolveu, então, trocar o sofá de sua sala.

O sofá é um dos móveis mais importantes de uma casa. Lá você derrama sua carga emocional no movimento de se jogar e eu diria que boa parte dos crimes passionais e das discussões domésticas são motivadas por um sofá ruim. Ele é fundamental para atenuar o stress que se localiza na nuca do trabalhador mensal e desce até a sola dos pés. Um sofá que tenha encosto reclinável e a possibilidade de abrir as almofadas para esticar os pés sem ocupar mais de um assento transforma sua casa num templo tibetano transbordado de paz. O sofá de Eliana estava velho e rasgado, atuante há doze anos no mesmo lugar.

‘’São trinta dias para a entrega.’’

‘’Então eu me desfaço do meu na semana de entrega…’’ Embora velho e rasgado, era ainda um sofá.

Acontece que o descarte daquele quase-ente familiar se deu de forma pouco pomposa e ritualística. Não houve despedidas. Não houve cerimonial algum. Nem sequer a preocupação em oferecê-lo a outro teto que lhe recebesse de bom grado: não! Na corrida dos vinte dias até a entrega do sofá novo, Eliana esqueceu-se do assunto. Não iria ficar sem sofá antes do novo chegar. Faltando 10 dias para a entrega de seu novo acalentador de stress, exercia a função do polvo multitarefas na empresa que trabalhava e a capacidade de concentração para buscar algum interessado no sofá velho transformaria sua semana num estorvo ainda mais pesado.

No segundo dia antes do sofá novo chegar, decidiu a substituição de seu móvel e a renovação do visual de sua sala num impulso quase inconsciente:

‘’Ah! Deixa na Avenida que alguém pega!’’

Na ausência de tempo e disposição para se ocupar do descarte daquele quase-ser, preferiu que o destino de seu agora-lixo fosse um problema compartilhado entre os transeuntes da Avenida Vereador Antonio Grotkomwski e a prefeitura local. Já não existia entre Eliana e aquela coisa disforme qualquer tipo de apego ou laço patrimonial. Sua nova sala ficou linda e aconchegante com aquele bem-vindo novo-móvel.

Crônica retirada da publicação: https://www.clickguarulhos.com.br/cada-vez-tem-mais-lixo-na-beira-de-corrego/