Da Chechênia ao Brasil: Pessoas matam pessoas em defesa da moral

Por Ricardo Celestino

O que eu preciso e para quem eu preciso provar o que?

Ou

Uma vida inteira que poderia ter sido e não foi.

Li há umas semanas que na Chechênia a policia tem orientado pais a matarem filhos gays para limpar a honra familiar. A notícia é velha, data de 04 de maio de 2017. A questão é que se os pais não o fizerem, a polícia o fará. Vítimas de perseguição denunciam à comunidade internacional a existência de instituições sociais desorientadas. Serve a polícia para quê, em um lugar desses? Contudo, não podemos apontar dedos, com a quantidade de janelas trincadas na nossa própria casa.

BAUMAN, O QUERIDO BAUMAN, ME ALERTOU EM UM DE SEUS LIVROS QUE DEVEMOS APRENDER A LER QUEM JULGAMOS MONSTRO 

As pessoas são torturadas por serem homossexuais ou são torturadas por abalar uma ordem preestabelecida? Judith Butler, em seu livro XXXXXX, disse em meus ouvidos que esse tal sistema ético que sobrevive em forma de ideias coletivas é degenerado e repressor. O motivo é que o espirito da coletividade já não acompanha, ou nunca acompanhou, a lógica que estrutura todas as regras dessas tais sagradas instituições. A polícia na Chechênia não cuida da segurança dos homens, mas da segurança de valores tão ocos quanto uma casca de ovo podre.

Há um elemento de compulsão nos costumes tradicionais. A moralidade surge na boca das pessoas quando essas questões buzinadas na nossa orelha deixam de imperar. Daí, os donos da verdade tem a presunção de enfraquecer o mundo, para fortalecer aquele aparato moral que ele não quer reformular. Eu chamaria isso da síndrome da bola quadrada e se você não assistiu Chaves em sua infância, eu poderia me dar o direito de esbravejar que a sua vida não será melhor que a minha. Quem sabe se tivesse o poder que tem os policiais da Chechênia, não pudesse enfiar uma bala na sua cabeça ou convidar seus pais à assassiná-lo cruelmente? (espero que entenda ironias).

O mais curioso, para Judith e depois para mim, é que essa ética coletiva não é compartilhada como um todo. Acontece que são aqueles com mais força que acabam se sentindo deuses da porra toda e ficam cagando regra sobre aquilo que é incontrolável. Pseudocompartilhada com um todo, pseudoresolvida naquilo que gosto de chamar memória de privada, na boca diária são fórmulas que só servem para ganhar discussão.

MAS, QUERIDO, AS PESSOAS MATAM PELO MACHISMO. MATAM PELA HOMOFOBIA. 

Então, acredito que o mais grave nessa situação sejam aqueles acometidos pela letargia da existência. Tudo para esses sujeitos é um grande estorvo e lhe rende muito trabalho para refletir e se envolver. Tudo é um mundo grande demais e ele, pequeno, insignificante. Sendo essa projeção mais discursiva que social, o camarada que diz não discutir isso ou não discutir aquilo, acaba por acatar a situação e reproduzir aqueles que tem a mão mais pesada. Daí me lembro de Lima Barreto, em 1920:

NÃO FUI REPUBLICANO, NÃO FUI FLORIANISTA, NÃO FUI CUSTODISTA, NÃO FUI HERMISTA, NÃO ME METI EM GREVES, NEM COISA ALGUMA DE REIVINDICAÇÕES E REVOLTAS, MAS MORRI NA SANTA PAZ DO SENHOR QUASE SEM PECADOS E SEM AGONIA

O discurso instrumentaliza a violência e mantém uma aparência de urgência coletiva, aquilo que é um problema todinho do assassino. Defender uma ética coletiva, uma ética de todo um país, é uma atitude anacrônica e jamais será realidade no todo-complexo da prática social. Daí, os desbravadores dos bons costumes pegam em armas, pois não dão conta de solucionar o insolucionável: mulheres não podem ser negligenciadas por homens; as pessoas não são obrigadas a se relacionar com o gênero que você acha que elas devam se relacionar.

O drama da Chechênia e o drama de muitos homossexuais brasileiros está no paradoxo da violência se projetar como um passado glorioso e promover um mundo de trevas, onde as pessoas não conseguem viver em paz. Na pretensão de ser um Deus que tudo vê e sabe o melhor para todos, eu me dou ao luxo de me travestir de Diabo e cometer os mais tenebrosos genocídios simbólicos e viscerais contra um outro que eu nem sequer conheço. Na busca de um controle total, eu não controlo nada e só protagonizo o caos moral a meu redor.

 

No mais, nada a temer.