De ficção de novos planetas à condições de nosso planeta

Sempre gostei de ficção científica. Meu primeiro livro exigiu reflexão pesada. Admirável Mundo Novo, de Aldous Huxley, ficou em minha memória adolescente e talvez tenha traçado um direcionamento para eu escolher quais seriam meus protagonismos no mundo. Lembro muito pouco dele. Tenho memória afetiva. Gostei da leitura por causa do David Bowie. E dos Strokes. Lembro do soma, das idealizações, de um mundo aniquilado pelo consumo, das instituições banalizadas… lembro. Só.

Daí eu li numa semana dessas que foi descoberto um exoplaneta com mais possibilidades de abrigar vida. Exoplaneta é aquele planeta que ronda outra galáxia, fora do sistema solar. Eu coloco tudo em minúsculo por, somente nesse texto, me sentir superior em alguma coisa. Somos violentamente insignificantes. Diante dessa condição, permito-me arriscar chegar perto do que é ser artista e navegar por entre mundos imaginários. Imagine você, como seria um exoplaneta com mais possibilidades de abrigar vida? Eu imagino que muito diferente do nosso.

Primeiro que essa condição de exo serve mais pra gente do que pra eles. O prefixo exo é de origem grega e remete à ideia daquilo que é externo, que se encontra para fora. O contrário da capacidade que um bom apaixonado tem de verbalizar a vida. É que um bom dia é só um exo-bom-dia. Para que se torne de fato bom, é fundamental a ação humana de reverter esse diabo, de desdobrá-lo em qualquer outra coisa menos convencional que um bom dia. Você saberia diferenciar, sem problemas, um beijo de um exobeijo. Então, eu acho que você desejaria viver muito mais tempo com uma pessoa que não fizesse de seu dia só um exodia.

O jornalista diz que os seres humanos se hospedariam bem em um sistema solar cuja estrela principal seja uma anã vermelha. Já gostei. Pequeno, subjaz mais cuidado dos próximos, não acham? Se você tem somente um ou dois amigos, você os conhece como ninguém, tem histórias, motivo para risos. Em uma cidade exocosmopolita, garantimos exoamizades e exorelações. A pequenez é a lupa que revela civilização na barbárie. Que encanta a observação do sólido pela sua liquidez. E… gente… a estrela é vermelha… não preciso dizer mais nada.

A estrela anã vermelha está dentro do campo semântico de astros muito menores, de luz muito mais tênue do que a do Sol. Taí! Olha que utopia! Uma galáxia de singelas doses de exibicionismo. De vida para ser vivida. Sabe porque? Porque os astros de lá são muito menores que os astros daqui. Você acorda de manhã, cruza com o Caio Castro e, nossa, ele não é aquele cara idiota com 50 milhões de seguidores no instagram. Não. Ele senta contigo, toma um café, te paga um café, te convida para a peça que ele mesmo produziu, a partir de um livro que ele mesmo leu, num teatro de luz tênue, numa rua qualquer. Gente… a estrela anã vermelha, sendo astro muito menor, de luz muito mais tênue, transformaria a Vila Madalena, será?!, em um bairro agradável, com pessoas agradáveis.

A última coisa legal que existe nessa nova estrela vermelha anã, é que ela já se chama Trappist-1. Meu caro… minha cara… ela abriga não uma, mas sete terras, três delas habitáveis. Com essas lentes maravilhosas que reduzem nossos astros, imagina a possiblidade de explorar três Terras de diversidades, de culturas, de geografias. Imagina três Terras de música, de literatura, de culinária? E a estrela não se chama SOL. Se chama TRAPPIST-1. Ela é uma garantia de que a receita de cerveja trapista será muito bem ambientada em qualquer lugar da galáxia, mesmo porque, em todos os planetas habitáveis há água líquida de muito mais qualidade que a nossa.

Estou triste. Esse lugar que acabei de criar não existe.

De resto, nada a temer.