De quando a identidade é tão sólida que desmancha no ar

Então vou chamá-la de Frida.

Tudo bem.

Frida organizava sua mudança quando tocou pela segunda vez nas caixas de papelão do maleiro de seu quarto. Nelas, somadas duas, estava escrito QUADRINHOS em letras de forma. Não devia, mas resolveu abri-las com a curiosidade saudosa de encontrar ali algo para despertar. Folheou, folheou, passou capa a capa. Umas anunciavam aquela nostalgia, outras clamavam para serem incineradas.

Em 1992, quando tinha seis anos, lia muito Turma da Mônica. Seus pais eram casados, numa relação tumultuada pela crise financeira. Moravam numa casa de quintal muito grande. Tinha uma cesta de basquete e uma bola de vôlei. Acertava a cesta só quando estava na cabeça do pai. Gostava de deitar no chão gelado e olhar nuvens… formar desenhos. Diziam só de olhar: Frida não tem preocupações… queria tanto ser criança. Só sentia angústia, ansiedade, fome, saudade, raiva, medo moderadamente, numa tempestade borbulhante de tudo-compartilhado. Organizava umas tais brincadeiras estranhas de correr e não liderava nada…

Em 1998, com doze anos, experimentou o vazio de uma decepção amorosa. Nossa, que precoce!, diriam… diriam se alguém fizesse alguma ideia do que se passava na cabeça daquela Frida. Já um pouco mais mal-humorada, mais viciada em açúcares, menos predisposta a correr, escrevia muita coisa em um diário da Moranguinho.

‘’O dia hoje é um saco. Aula chata… meninas chatas… meninos chatos… o dia é um saco!’’

Deixava a televisão na MTV e esperava os programas acabar porque eles também eram um saco. Menstruara há dois anos e achava a menstruação um saco. As dores borbulhavam dos rins ao estômago e tinha uma cólica do cacete. Vestia pijama, quando não estava com o uniforme da escola. Não lia os quadrinhos da Turma da Monica que seu pai lhe trazia: reescrevia diálogos, rabiscando os impressos e pintava tudo com cores diferentes. O Cascão, em uma das edições, virou pirata e a Monica ganhou calças. Fosse a mãe uma psicóloga acharia explicações freudianas para aquilo que era a anunciação do tédio de uma adolescência precoce ainda não integrada. No entanto, só exaltava ainda mais a ranzinzês de Frida ao gritar: menina chata do cacete!

Em 2002, com dezesseis anos, seus pais se separaram. Não entendeu direito o motivo, mas os dois passavam, a sua vista, muito bem. O pai emagreceu, passou a usar roupas mais modernas. A mãe saía quase todas as noites de sábado e experimentava novas estéticas de olhar o mundo. Frida teve sua primeira experiência sexual com um namorado de dois meses. No terceiro mês a relação acabou por falta de tempero. Aprendeu a tocar violão, compôs músicas sobre o tédio e comprou muitos cds piratas na Galeria do Rock.

Certo dia, naquele ano, uma amiga lhe veio com dois presentes: o cd do Strokes, Is this it, e o Monstro do Pântano, do Alan Moore. Se apaixonou pelos dois. Depois dos primeiros contatos com músicos da sua época e um quadrinho diferente daqueles infatilóides, passou a ser coro crítico nas aulas de Literatura. Coro tímido, calado, crítico. Internamente, achava José de Alencar um cara babaca, sem nem ao menos ler um livro inteiro do indianista. Também amaldiçoava Castro Alves e gostou muito de Noite na Taverna e Memórias Póstumas de Brás Cubas. Estava no segundo ano, no confuso século XIX.

Em 2007, com vinte e um anos, conheceu a faculdade e seu entorno. Não passou em nenhuma pública, fez dois anos de cursinho e conseguiu entrar em uma privada de médio porte. Era assim que seu pai identificava o curso de arquitetura de lá. Conseguiu um emprego de meio período como atendente de uma loja de calçados de um shopping qualquer. Trabalhava todos os dias, exceto as quartas-feiras. Saía quase todas as quintas, sextas e sábados com suas novas amigas. Namorou seis meses uma garota da Engenharia e este foi, até aquele momento, o relacionamento mais duradouro da sua vida. Não tinha um puto na carteira, mas elas se presenteavam todas as semanas, quer com versinhos de poemas, com bruxinhas perfumadas, comidas instantâneas, ou uma conversa nas escadas de incêndio da universidade.

Naquele ano, no segundo semestre, fez um curso de marcenaria e aprendeu a reutilizar quaisquer coisas com madeira. Saíam as duas em busca de móveis velhos abandonados e conheceram muitos lugares legais da periferia paulistana. Não é que só ficavam na periferia para encontrar móveis abandonados, mas o que ficou na memória de Frida foi a experiência de andar por Heliópolis e algumas partes de Paraisópolis com o compromisso de vender a preço de custo os móveis que fabricavam.

A família de sua namorada tinha uma casa com quintal grande e lá montaram um tipo de ateliê. Faziam de tudo: cadeira, mesa, armário, brinquedos. Ficavam zonzas com o cheiro da cola… em uma dessas pausas, lembrou, liam muita coisa da coleção de quadrinhos do Quarteto Fantástico que sua namorada preservava. Achava aquelas histórias muito infantis e a referência feminina muito idiota. Por que a mulher tem que ter o poder mais imbecil, do tipo ficar invisível e se submeter a todo um complexo sistema patriarcal de ser a lambe-botas do homem mais inteligente do mundo?

Em 2012, com vinte e seis anos, noivara com um colega de infância da sua ex-namorada. Formado em direito, tinha escritório próprio e condições para sustentar a si mesmo, a Frida e os esperados filhos. Encantou-se durante muito tempo com todos os catálogos de design de interiores. Era muito agradável passar os fins de semana junto de sua sogra. Não precisava, mas pensava em realizar um curso de pós-graduação para entender profissionalmente aqueles catálogos que tanto gostava.

Lembrou quando em uma tarde daquele ano, seu noivo lhe veio com uma boa-nova:

Vamos nos mudar para o Uruguai.

Uma promoção é sempre uma promoção. Combinaram de ir a um restaurante fantástico que sempre iam nas ocasiões especiais. Uma cantina italiana no bairro do Ipiranga servia um risoto na casca de sorvete. Paravam o carro na rua em frente a uma banca de jornal. Frida desceu para que seu noivo manobrasse e foi dar uma olhada nas revistas de design. Tal não foi sua surpresa ao encontrar uma versão teen da Turma da Mônica, daquelas que lia quando era muito nova.

Em 2016, com trinta anos, recebera por e-mail o aviso de sua promoção. Nunca saíra do país e aquela seria a primeira chance de experienciar uma rotina longe de seus familiares e amigos. Santiago era muito frio em julho, precisaria de roupas novas. Novamente não conseguiria se livrar de suas caixas de quadrinhos. Na mala de mão levaria um livro sobre design e um recente quadrinho do Neil Gaiman.
Inspirado por: http://g1.globo.com/pop-arte/noticia/2016/07/adolescente-negra-substituira-tony-stark-como-homem-de-ferro-nas-hqs.html