Então vou chamá-la de Lígia.

Tudo bem.

Lígia tem 30 anos e um inacabável sono. Sonha, se martiriza. Tem a angústia do Deus Capital que te faz esperar hoje o tempo que vai vir amanhã. Naquela segunda-feira, acordou no horário de sempre e retirou seu pijama: um pequeno short de seda e uma blusa de alcinhas. Caminhou até o banheiro. Escovou os dentes, penteou o cabelo, sentou no vaso e leu algumas páginas de uma revista qualquer, daquelas que só fazem sentido ao lado do vaso sanitário.

O cheiro da cozinha arranhava sua garganta. O lixo estapeava suas bochechas como a cafeína de um café que ela esquecera de comprar há um mês. De onde sentava, enxergava o reflexo de um bonsai – enfeite de raiz natural que deixava inexplicavelmente em cima da geladeira – que lhe acenava o desespero da sede. Acometida pela cegueira do imediatismo de acordar-levantar, o ignorou pelo quarto dia consecutivo. Como de costume, tomaria seu café na padaria mais próxima e foda-se toda aquela sujeira: qualquer dia eu dou um jeito.

A deformação das almofadas de seu sofá sussurravam os roncos do último companheiro. Qual era mesmo o nome dele? Márcio. Mauro. Maurício…

  • Tudo bem em dormir na sala?

  • É… tudo. É que eu achei que…

  • Desculpe… hoje não vai rolar nada. Eu só queria tomar umas e conversar. Te decepcionei?

  • Não, de forma alguma… é que…

  • Olha, você não precisa fingir que esteja tudo bem… eu definitivamente não me importo e não estava afim de fazer o que eu não sinto muita vontade.

  • Calma… eu só… sei lá. Eu me preparei para esse encontro e…

  • Você não quer que eu peça desculpas, quer?

  • Não! Claro que não… imagina.

  • Então… você está sem carro, o trem só começa a funcionar as 04:30 e ta sem grana pra um taxi. Sei lá, tem o uber, mas não me importo se você quiser ficar aqui. Mesmo. Então?

  • Calma, Lígia. Eu sugeri que deitássemos para… olha, é melhor deixar pra lá, poderíamos continuar bebendo e conversando, pode ser?

A mesa da sala, as latinhas vazias de cerveja e os petiscos pela metade sinalizavam uma segunda tentativa ainda mais frustrada:

  • Você é uma das mulheres mais esquisitas que eu já sai.

  • O que você quer dizer com isso?

  • Pô… sei lá. Só acho tudo muito engraçado.

  • O que você esperava?

  • Quando uma mulher manda uma mensagem marcando um encontro na sua casa?

  • Sim…

  • Bem, normalmente tomaríamos vinho, uma comida diferente, a casa estaria… sei lá… arrumada.

  • E dai então eu treparia loucamente com você.

  • É… calma, eu não queria te… você que puxou esse assunto, não?

  • Acho que não. Você que achou tudo muito estranho.

  • É… sei lá… talvez você se daria melhor com uns colegas meus ou umas…

  • Você acha que eu gosto de meninas?
  • Já experimentou?
  • A gente vai conversar sobre isso mesmo? Eu não queria estragar nenhum fetiche teu…

  • Acho que é melhor eu ir dormir então.

  • Acho que sim…

  • Você teria uma…

  • Você se vira aí, né?! Tem algumas almofadas, canal erótico na televisão. Vou te dar um edredon e um travesseiro. Valeu por ter vindo. S’drio, eu precisava de umas risadas, álcool e salgadinhos. Esfriar a cabeça com você é muito bom.

  • Boa noite.

  • Amanhã, se acordar antes, pode deixar a porta só encostada, não pega nada não.

  • .. podíamos… sei la, acordar e fazer uma panqueca americana?

A porta, apenas encostada brandia um pouco da insegurança da despedida, ou da responsabilidade auto-instituída de deixar Lígia sozinha sem um trinco resistente. Ela abriu a porta e a trancou. Chamou o elevador. Desceu e teve mais um dia comum de trabalho.

Matéria inspirada em: https://www.clickguarulhos.com.br/receita-de-panqueca-americana/