Então vou chamá-la de Angela.

Tudo bem.

Angela aguardava sua vez em uma pequena sala de espera. A sua frente, uma mesa de centro reunia revistas curiosas, daquelas que exaltam a vida dos homens e das mulheres de grande sucesso. Tinha um jornal do dia, daquele repetitivo, no aguardo de uma catástrofe tabloide. Havia, então, uma necessidade de passar o tempo e o folhear dessas estranhezas por uma pós-adolescente que não foi precavida o suficiente: tanta coisa para ler, nessa meia horinha aqui sentada, podia adiantar um livro…

Atrás da mesa de centro, uma senhora atualizava a agenda de consultas. Vestia traje social, combinando com uma séria cara de desdém. Não que todos os dias fosse daquele jeito, mas naquele em especial, acabara todo o saldo de sua conta e ainda era apenas o meio do mês. Precisava de não mais que duzentos reais para comprar uma passagem de ônibus e ir visitar sua irmã que não se sentia tão bem e morava no Rio de Janeiro. Também tinha um menino pequeno e ele fora muito mal em matemática, em sua primeira avaliação da vida. Esquecera de mandar a atividade de recuperação na agenda e recebera há poucos minutos uma ligação da coordenadora pedagógica, que diga-se de passagem era muito educada e tinha uma voz muito serena, lhe cobrando mais atenção.

”A senhora assine aqui, por favor, sente e espere até que Doutor lhe chame.’’

Eram as palavras que conseguia pronunciar, enquanto Angela acompanhou a repetição do mesmo mantra quatro vezes, a contar de quando chegara. De repente:

“Senhora Angela… o doutor a aguarda.’’

A sala não continha nenhum clichê cinematográfico. Era uma poltrona acolchoada para o Doutor, outra para ela. Ambos ficavam um de frente para o outro. Ele não segurava pranchetas, não anotava nada. Só a aguardava. Já a conhecia de longa data e ela nada sabia de seu método. Confiava, só confiava. Tratara de sua mãe, tratara de sua avó. A irmã também passara por ele. Todas curadas, dentro do possível. Se é que há cura.

“Então, Dona Angela, o que te traz aqui?’’

‘’O mesmo de sempre…’’

‘’Como passou a semana?’’

‘’Muito bem, graças a Deus.’’

‘’Nenhum contratempo?’’

‘’Não… não…’’

‘’Tem certeza?’’

‘’É… meu pai já conversou com o senhor, né?!’’

O Doutor sorria o sorriso dos complacentes.

‘’Então, eu diria que temos uma divergência de opiniões.’’

‘’É assim que você gosta de chamar?’’

‘’Sim…’’

‘’Conte-me mais.’’

‘’Eu decidi pedir demissão.’’

O Doutor levantava a sobrancelha com complacência.

‘’Então, eu contei para ele… e, você o conhece melhor que eu… acho que conhece melhor que eu… ele surtou.’’

‘’Ele surtou?’’

‘’Sim… aquele jeito dele de ver o mundo. Disse que eu larguei uma carreira estável sem ter nada…’’

‘’E isso é verdade?’’

‘’Não… eu tenho planos…’’

‘’Você tem planos?’’

‘’Sim. Durante muito tempo eu tenho lido uns livros sobre pastilhas de vidro. Sabe, aquelas pastilhas que colocam no banheiro… para decorar.’’

‘’Sei sim…’’

‘’Então, eu realmente me encantei com essa coisa de decorar ambientes… daí andei pesquisando móveis e umas coisas de recicláveis… aproveitar materiais velhos e construir coisas novas…’’

‘’Certo…’’

‘’Eu vi que tem muita gente abrindo empresas… com essa coisa do empreendedorismo… e eu andava muito limitada onde estava… não me dei conta do potencial que tinha… sabe, de ser criativa.’’

‘’Criativa?”

‘’Sim… eu inclusive desenhei para o senhor um novo modelo de consultório… o senhor vai adorar…’’

‘’Eu vou adorar?’’

‘’ Sim! Veja só… você abre aí uma janela… e deixa isso aqui um pouco mais iluminado… descortina isso tudo… e coloca uns coloridos para fugir dessa cara de consultório…’’

‘’Eu vou querer ouvir isso depois com mais atenção… mas acho que, por meio do que seu pai disse e do pouco que conversamos, consigo ver um diagnóstico…’’

‘’Um diagnóstico?’’

‘’Sim… um diagnóstico.’’ – o Doutor lhe sorriu com complacência.

‘’Pois diga, Doutor… diga por favor…’’

‘’Você está sofrendo do transtorno de Dom Quixote.”