De quando achou que Dolores era Doroteia

Então vou chamá-la de Bruna.

Tudo bem.

Quando Bruna tinha dezoito anos, saía todas as noites porque se sentiu definitivamente livre das amarras da menoridade. Tinha dessas coisas em sua casa: quando for maior, será dona de seu nariz e poderá fazer o que quiser. Aprendeu a dirigir. Dirigir um automóvel, nem pensar. Queria saber de não se preocupar com coisas triviais como lugar para estacionar e permissividades legais para beber. A noite tinha que estar sob seu total controle.

Arrumava-se com as melhores roupas que podia comprar. Não era dada a muitas vaidades, nem dotada de salário exorbitante. Usava aquilo que a fazia se sentir muito bem: um jeans, uma camiseta de uma série ou um quadrinho prediletos, um penteado que diferenciava os dias correntes da noite de alforria e um tic-tac que prendia no cabelo, o qual costumeiramente diversificava entre as cores azul e rosa.

No dia que quero dar ênfase, Bruna dançava alucinadamente uma batida repetitiva em um salão cheio de cores. O corpo deixava a mente confortável e anestesiava a pesada jornada de se encontrar o tempo inteiro num personagem de taier, salto-alto, prancheta e sorriso de pronto-atendimento. A vida fluía e vivia. Parou alguns minutos e foi presenteada com uma latinha de cerveja. Em um lugar desses, cerveja não se usa diminutivo e qualquer -inha vira -ão. Gostou do gesto daquele que se apresentava como uma companhia de réplicas e sorrisos.

Dançaram juntos, um imitando a sombra do outro. Se colaram por uns segundos. Bruna sentiu as curvas malhadas de um parceiro empolgado. Trocaram gestos, cheiros e dois números de telefone. Um adicionaria o outro em sua relação de amigos nas redes sociais, se não fosse o triste acaso de uma das contas não existir. Vive-se sem essas tais redes integradas de alegria, desses mundos perfeitos recheados de gênios da criticidade.

Passaram a conversar um com o outro dia-a-dia sempre que Bruna podia. Não gostava de falar da que tinha, mas da que teria, quando o assunto era vida. Programaram, até, umas voltinhas de avião por aí, daquelas viagens de mochila nas costas, que assistia muito na televisão e não conhecia tanta gente assim realizando. Foram, umas duas ou três vezes para ubatuba. Nessa viagem gostaram muito de curtir um o outro sem o tempo corrido do relógio diário.

Namoraram. Casaram. Dez anos depois, bateu em Bruna uma sensação quixotesca. Estranho aquele vazio repentino. Peco mesmo é na narrativa, porque nada na vida acontece em repentes. Do traço contínuo dos dias, na tomada do café e no jantar em hora errada, ingeriu tanto carboidrato e tanto sapo, que metade dos futuros ficaram para o pretérito. De presente mesmo, só cumpriria respirar, andar, algumas contas para verificar e o cabelo que oscilava as mesmas cores do azul ao cor-de-rosa.

Conseguiu seu diploma. De graduação, especialização e caminhava para o mestrado. Não foi bem naquilo que queria. Nem sequer sabia se tinha vocação para outra coisa, senão aquela velha recomendação de planos de saúde e seguros de vida. Assumira a gerência e com conforto, esquecia rotineiramente que não trabalhava naquilo que estudava porque não valia a pena. Um era compromisso sério, outro, hobbie de uma tentativa de traçar um futuro intelectual, quem sabe de uma quadrinista renomada.

O garoto que namorara parecia distante, naquela fantasia de homem sério. Só que, naquele dia de dez anos depois, andando no shopping de mãos dadas, eles trombaram um anúncio de viagens. Nova Iorque. Estados Unidos. O casal. Caro… muito caro… nem sequer olharam o preço. O que mais chamou atenção, foi revirar um o outro, a si mesma e ao companheiro:

‘’Cacete… de onde é que eu te conheço?”