De quando ainda há dores, mas quero falar de conforto

Então vou chamá-la de Layla.

Tudo bem.

Layla levantou tarde. Colocou o pé descalço no assoalho frio. Certificou a ausência dos corpos nus. Andou três ou quatro passadas até a sala. Ninguém. Correu de volta pra cama e se cobriu até a cabeça.

Onde você tá?

Eu to dando aula… esqueceu? Hoje é a quinzena que eu trabalho…

Os sábados que ela trabalhava eram sempre assim. Layla levantava, encontrava a cama vazia e corria para apalpar o celular embaixo do travesseiro. Ligava rapidamente para sua namorada com a angústia de não senti-la ali, do seu lado…

”Essa sua mania de deixar o celular embaixo da cabeça enquanto dorme, vai derreter seu cérebro.’’

”Ou vai permitir que meus sonhos estejam em rede wi-fi com o mundo inteiro.”

”Que horas você vem? Eu já estou com saudade.”

”Não posso falar muito agora… chego na hora do almoço.”

Tomou coragem de existir naquela manhã só depois de uma hora entre o ali e o aqui. O sábado era de outono, mas tinha um vento gelado de inverno: é que o apartamento delas era muito frio. Ficou deitada na cama rolando de cá pra lá, encontrando nos movimentos a posição confortável para passar o tempo.

Pegou o celular e foi deslizando a tela de sua rede social. O de sempre, o mundo sem-novidades. A política, o futebol, a palavra, o discurso, o maniqueismo autoritário da esquerda e da direita. Lembranças gostosas de um sábado passado de Virada Cultural. Numa cidade cinza como São Paulo, era tão gostoso quando se podia, uma vez por ano, passear nas ruas iluminadas do centro histórico. Revisitou os momentos pelos vídeos que fizera com ela, na Praça da Sé.

‘’Quem é você?’’

‘’Eu sou o amor da vida da Layla.’’

‘’Nossa! Quanta confiança!’’

‘’Então… não sou?’’

‘’É sim!’’

E o diálogo era entrecortado com abraços apertados e beijos desordenados que, se mirados, não chegavam só à boca, mas ao pescoço, à bochecha, à orelha…

Lembrou que voltaram cedo pra casa naquele dia. O sapato das duas apertara, as duas se encheram o saco da multidão, as duas reclamaram que estavam velhas. Curtiram a cidade no tempo que queriam curtir. Chegaram em casa, pediram uma pizza e depois dormiram como todas as noites: uma de bunda virada pra outra, após uns beijinhos e umas confissões ao pé do ouvido.

No dia seguinte, levantou… fez café… no coador… torrou um pão de forma… passou requeijão light… ligou a televisão e fez sua primeira refeição do dia assistindo à Globo. Aqueles programas sem sentido que passavam as seis e meia da manhã. Tinha problemas para dormir até tarde, porque durante a semana, Layla era mais uma dentre tantas operadoras da bolsa de valores. Sua TV não tinham canal a cabo… estava com preguiça de procurar no streaming, algo melhor para assistir.

Enquanto revivia todos aqueles momentos, pesou as pálpebras e voltou a dormir. Acordou no susto de sentir seus lábios tocados.

”Bom dia.’’

Abraçou-a com o aperto que daria em quem não deixaria fugir.

”E aí, o que vamos almoçar?’’

”Qualquer coisa, em qualquer lugar.’’

Foi o tempo de tomar um banho, se trocar e já estavam as duas, na rua, procurando um restaurante que servisse um bom prato feito que desse para dividir em dois.

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