De quando Ana precisava de um clone

Então vou chamá-la de Ana

Tudo bem.

Ana é doutoranda. Todo e qualquer prazo é curto para Ana. Todo e qualquer convite que lhe desvie atenção para outro mundo, senão seus afazeres científicos, é penoso para Ana. Toda e qualquer forma de coação para um chopp, um café ou uma conversa despretensiosa são horas de leitura a menos, horas de escrita atrasada, horas do que poderia ter sido e não foi. Ana está no fim do semestre.

Como muitos pós-graduados no Brasil, Ana é pesquisadora, revisora freelancer, professora e disponível para quaisquer complementações de renda. Pela manhã, ministra aulas em uma escola pública na Zona Norte. No meio da tarde, fecha os olhos meditativamente por dez minutos e inicia uma nova jornada enquanto pesquisadora. No fim do dia, verifica os e-mails, desejando um bico para lhe render uns troquinhos a mais: já que na brincadeira de vida, a única remuneração permitida é a de uma única atividade.

Naquela semana áurea do mês de outubro, Ana terminava um artigo científico já aceito para publicação em uma revista indexada. Também tinha em sua lista de atividades, a complementação de seus capítulos de tese e a elaboração de mais um, como meta semestral. Precisaria enviar um resumo de comunicação para um congresso internacional. Gostava de escrever assistindo noticiários televisivos: daqueles que só anunciam e nada debatem.

Argentina se mobiliza contra os feminicídios no país

Aquela manchete aparecia hora sim, hora não. A cada sim, Ana sentia um leve aperto invejoso dos argentinos: eles se mobilizam. As fotografias eram de uma grande praça central cheia de gente. Um mar de gente. Ela que não via coisa parecida, senão por temáticas de manobra, achou o evento surpreendente. Pelo pouco que leu, não havia nenhum MAL por trás daqueles passeantes. Eram sujeitas e sujeitos revoltadas com o medievalismo à mulher. Feminicídio deveria ser um arcaísmo.

Então, parecia tomada por um Satanás motivador. Decidiu fechar o artigo que revisava – Os discursos religiosos seiscentistas em Portugal: de Chagas a Vieira – e preferiu dedicar a uma temática mais significativa e emergencial – Afinal, porque os argentinos conseguem e nós não?. As hipóteses para uma argumentação significativa eram: será que a mobilização das mulheres é uma resposta a uma situação mais agravante do que a nossa? Será que as mulheres daqui são melhores tratadas do que as mulheres de lá? Será que as argentinas tem mais capacidade de organização que as brasileiras? Será que os brasileiros só se politizam quando definem o lado da rua que se deve marchar: direita ou esquerda?

Violência simbólica! Deu-lhe o estalo. Talvez esse seja o caminho. É que Ana enquanto mulher, se comportava na maré. Simpatizava muito com o discurso feminista, mas a leitura que tinha sobre tudo aquilo era a de uma burguesa média numa redoma tecnológica de boas maneiras. Ela tinha que inventariar alguns textos relacionados ao tema e talvez se ambientar. Sabia que se comportava à maneira de…, e que não se esforçava muito em mudar os símbolos machistas que se deparava cotidianamente. Nas aulas de doutorado, era a única mulher da sala e, quando entrava, seus colegas diziam:

Finalmente uma mulher para mudar um pouco o ambiente.

Para ela tudo bem. Para eles também. Ana sentia que aqueles rapazes não lhe ofereciam nenhuma ameaça real. Somente soltavam vez ou outra umas frases prontas de pouca reflexão, repetindo o comportamento de uma espécie de símio pré-humanóide. Tudo bem. No momento que o símio tomar controle sobre o homem, aí ela poderia começar a se preocupar.

Não! Ta aí algo legal para eu contribuir!

Era aquele caminho que Ana deveria seguir. Talvez aquele caminho ela tinha mais força argumentativa para defender a tese que se proporia construir: dessas pequenas atitudes imbecis, nasce um estuprador retardo em potencial. Desses pequenos atos mongolóides e impensados, nasce um genocida de mulheres, um estuprador maluco, um sequestrador que mantém sua amante e sua filha em cárcere privado.

Selecionaria, então, casos de abusos contra a mulher e estabeleceria relação com pequenos verbetes de twitter, de homens Homens para reafirmar seu posicionamento: esses doentes mentais estão dentro de cada um de nós. Nossa formação cultural permite que nos defrontemos diariamente com um mundo humanizado ideal e um palco de atrocidades tradicionais. Deveria escrever um artigo que agisse sobre os atos cotidianos do cidadão médio que pensa ser, mas é muito pouco ilustrado.

Não falaria com ninguém ainda… porque gostava de compartilhar as ideias imaturas que lhe viam a mente para testar se a tese era boa ou só uma furada. Estava, contudo, em uma outra fase: a fase de maturação e discussão consigo mesma. Passou a escrever algumas linhas sobre aquilo, com a urgência de consolidar um breve resumo. Fazia isso no bloco de notas de seu computador, que sincronizava direto com seu celular e no backup de sua caixa de e-mail. Depois ficaria relendo aquilo, tal como um ruminante, até dar a forma que gostaria.

Formação cultural ou formação discursiva? Urgências do meio ou urgências dos gêneros? Afinal, tudo isso é ou não é a mesma coisa?

Então salvou o arquivo após um corpo de texto de meia lauda. Meia lauda raivosa. Meia lauda cheia de problemas de concordância e sem nenhuma adequação com o decoro científico. Meia lauda mal caprichada só para guardar aquilo que não podia perder. Daí fechou o arquivo sobre os argentinos e retomou aquele que revisava. Já era quase cinco da tarde, daqui a pouco tinha que cozinhar, lavar roupa e preparar a vida para o dia seguinte. Tinha também que cumprir com outras metas do dia: terminar a revisão, descansar, jogar video-game, dormir. O dia ainda existia…

Texto de Ricardo Celestino