De quando Cândida pegou carona com um estranho

O governador Geraldo Alckmin durante entrega de 368 Unidades Habitacionais construídas pela CDHU (Companhia de Desenvolvimento Habitacional e Urbano) para famílias de baixa renda. DATA: 28/12/2013 LOCAL: Osasco/SP FOTO: EDSON LOPES JR/A2 FOTOGRAFIA

Então vou chamá-la de Cândida.

Tudo bem.

Não estou muito acostumado a falar sobre pessoas com idade maior que a minha, mas o episódio prenuncia uma obrigação de registrá-la. Talvez como muleta, afirmo que a ficção pode não ficar tão boa quanto a situação e isto me coloca numa aporia complicada, já debatida por Agostinho quando se confessa e, pelo que me lembro, também por Camões quando encarna Vasco da Gama: as mazelas da memória nos pregam peças tamanha, que nos impedem, dada as limitações de tempo e espaço, exteriorizar tudo aquilo que experienciamos na sua pureza Real.

Então, Cândida é uma senhora de aproximadamente 65 anos. Não se pode bem dizer a idade com exatidão tendo a conhecido no banco de trás de meu carro. No dia que a conheci estava muito frio, desses estranhos frios de outono numa cidade estranha como São Paulo, e eu esperava minha namorada em uma loja de conveniências. Optei em tomar um chocolate quente, enquanto esperava meu smartphone tocar e anunciar a necessidade de pagar pela bebida e ir para o carro encontrá-la.

Terminei a bebida e me dirigi ao caixa para pagá-la. Me deparei, então, com uma senhora de corpo pesado, muita roupa e uma bengala de auxílio a uma perna manca. Cada passada, soltava interjeições da dor de seus cotocos. Na fila do caixa estávamos eu, um rapaz a minha frente e a balconista. Cândida, a senhora de bengalas, passou a ser Cândida, a senhora que precisava de R$10,00 para um táxi. Passou também a colher respectivas respostas que adjetivavam todas as pessoas presentes naquele lugar, inclusive eu:

Por favor, meu anjo, você teria dez reais para eu tomar um táxi? Eu te trago amanhã. Prometo que te trago amanhã.

Minha senhora, eu não tenho… não posso tirar do caixa. (piscadela para o homem que pagava sua bebida a minha frente e, na distração de Cândida o cochicho: é golpe!)

Por favor, meu anjo, você teria dez reais para eu tomar um táxi? É que eu estou com uma dor danada na minha perna… saí agora do hospital…

Eu não tenho… desculpa…

Por favor, meu anjo, você teria dez reais para eu tomar um táxi? Meu menino me deixou aqui no hospital e foi embora…

Em síntese, a costumeira recepção paulista às adversidades do outro: Minha senhora, não tenho, não posso, não tenho, não quero, não tenho, não. Então, paguei minha bebida e também tive a reação comum, de um burguês comum: a lamentação de um coitada.né., e o virar de costas simbólico de um infelizmente.não.posso.fazer.nada.boa.sorte.se.vira.aí.e.seja.feliz. Então, Cândida saiu da loja de conveniências como entrou: com dores na perna, sem R$ 10,00 para o táxi e com os votos de boa.sorte.mas.não.posso.ajudar.

Saí logo atrás de Cândida e a vejo conversando com minha namorada. Não sou dado a sexismos, senão por um único diferenciar: o homem adjetivo não tem a capacidade de enxergar a alma humana como a mulher adjetivo. A mulher adjetivo, maternal – veja que não quero colocar nela as funções sociais de uma mãe que soma obrigações sociais e implicações pseudogenéticas, nem atribuir a condição mulher adjetivo às condições de corpo e gênero, mas transpor o simbólico maternal a uma estética de vida mais harmoniosa com o outro, que pode ser apreendido por um homem desde que deixe de lado sua adjetivação -, teve, naquele momento, o cuidado de ouvir Cândida e, na subjetividade do instante, conceder à complexidade, uma solução.

Eu não tenho nada, estou realmente sem dinheiro. Mas a senhora vai para onde?

Vocês vão para onde, meus anjos?

Vamos para a Vila Nova Cachoeirinha. Perto do Andorinha.

Eu moro lá perto também, meu anjo.

A senhora quer uma carona?

Eu quero.

Então, vamos levá-la para casa. Entre no carro.

Muito obrigado, meu anjo. Muito obrigado.
inspirado por: https://www.clickguarulhos.com.br/prefeitura-promove-sorteio-de-moradias-para-idosos-e-familias-com-deficientes/