De quando conheci Eliza

Então vou chamá-la de Eliza.

Tudo bem.

Eu costumo sair da aula às 15:30. Toda quarta-feira, no mercado próximo, tem frutas com preço bom. Frutas ‘’frescas”. Essas aspas são importantes, porque vez ou outra, a gente pega umas maçãs machucadas, umas bananas que não duram mais que um dia e umas mexericas tão sem gosto e sem perfume que parecem passar pelo ar quente do secador de cabelo antes de despejadas para a compra. O grande problema do garoto burguês: as frutas ditas do dia, não o são. E todas elas, expostas para a venda, são muito lindas e aparentemente suculentas. Deve ser por conta da iluminação do mercado.

 Com a lista posta, ousei comprar, além do necessário, umas latas de cerveja para o fim de semana. A vida-relógio permite a rotina de quebrar a dieta somente aos sábados, posto que de segunda a sexta já existam tarefas pré-ordenadas para o bem-estar da máquina íntimo-mental de sua cabeça. Não tem nada mais constrangedor para si mesmo que fugir da dieta em dia de semana.

 Carrinho cheio, me dirigi à fila do caixa. Alguns mercados da cidade de São Paulo tem características muito interessantes: há cerca de vinte caixas desativados e dois ou três funcionando em constante ebulição. Estratégia muito rentável para o empresariado. Além de instituir O DIA DA FEIRA para a venda de frutas não tão frescas com preços não tão acessíveis, economiza, de seu lucro, pequenos trocados, para o contrato de mais operadores de caixa. A lógica parece simpática até na cabeça dos clientes, claro. Afinal, aquele é um

 LUGAR DE GENTE FELIZ.

 Posto minhas impressões, não é de se espantar que eu enfrentei fila. Sete pessoas a minha frente. Possivelmente, somada às sete ao lado, no outro caixa, éramos em semelhança quatorze pessoas consumindo naquele mercado. Não… não haveria mais ninguém comprando. Naquela hora da tarde, os corredores estavam sempre vazios.

Tal não foi minha surpresa quando se aproxima, em minha traseira, um carrinho que me come o canto do calcanhar. A potência da batida refletia a falta de atenção do condutor, dado seu espanto em enfrentar fila, com a pacata movimentação dos corredores.

Me desculpe… me desculpe… por favor, me desculpe.

Não doera tanto. É que quando dopamos com uma dor desprevenida, temos a mania de hiperbolizar os sentidos. Fiz careta, levantei o calcanhar, me equilibrei em um pé só, dei pulinhos voltando em 360 graus e, provavelmente, até soltei gemidinhos de dor. Dramático! Semiótico!

O OSCAR VAI PARA…

Então me deparei, ao recompor o velho papel de cliente bronqueado, com as olheiras de Elisa.

Não foi nada… imagina!

Elisa olhava de cá pra lá, de lá pra cá. Coçava com força o couro cabeludo próximo a nuca. Foram menos de vinte segundos acompanhando sua angústia e não me contive em tentar assunto:

Demora, né?!

Ela fez que sim com a cabeça. Afirmação de alguém que ou não quer prolongar a interlocução, ou até tem um pouco de apreço por ti, mas está com a cabeça tão cheia de complicações que não tem disposição para elaborar sequer um papo-de-matar-tempo.

De-mo-ra.

A palavra saiu após o expirar total de todo oxigênio pelas narinas. Enquanto isso, o operador enfrentava a epopeia do cartão-vale-refeição com chip sujo. Da máquina de cartões com o leitor velho. Do produto cancelado que aguardava autorização do gerente que se encontrava no banheiro administrativo com problemas intestinais severos.

Vocês devem imaginar que alguém surtaria nessa narrativa… pois aconteceu. Elisa coçou o couro da nuca com uma força que lhe arrancaria o cerebelo e colocou tudo para fora:

Olha aqui! Oi! Olha aqui! Isso é um absurdo! Vai ou não vai? Isso é… um absurdo! Puta que pariu!

Todo mundo lhe deu a atenção devida durante seu ato de fala, mais cinco segundos. Depois, olharam para os próprios pés e continuaram murmurando as próprias insatisfações. Assim como Elisa, eu também já estava com o saco cheio, pela demora.

É complicado né?! Mas tem que ter paciência.

Elisa encarou minha frase, somado à possível tonelada que carregava nas costas e desabou.

Olha, menino… eu venho aqui toda quarta-feira e toda quarta-feira é essa mesma merda! Esse aí – apontou para o operador que ouvia, mas não se importava – é de uma lerdeza que só vendo. Daí chama o outro… aí o outro não vem… e demora… e fica olhando para as moscas… sabe, eu tenho minha mãe, que ainda é viva, que não consegue andar daqui até ali… fica o dia inteiro sentada na cadeira de rodas. Meu pai, que já está com oitenta e sete anos, está acamado, só mexe da cintura para cima, tem Alzheimer… tudo fica na minha cabeça. Eu tenho que dar banho na minha mãe, dar banho no meu pai… tenho que arrumar o almoço… dar o almoço pra eles… eu fico o dia inteiro olhando eles, se não precisam de alguma coisa… a gente fica com medo, sabe? Eles ficam no quarto deles, eu to na sala, to pensando como eles estão lá…

Nossa… e porque a senhora não arruma alguém para ficar com eles?

Arrumar alguém… meu pai foi o único que trabalhou. Tem aposentadoria, mas é um salário. Minha mãe, enquanto ela andava, ficava com ele, mas agora deu isso nas pernas dela. Eu trabalhava numa firma aqui perto, também ganhava um salário. A gente não tem condições de pagar convênio. Também não tem condições de pagar alguém pra ficar com eles: é uma fortuna. Você já viu quanto custa? Sabe, lá seria bom, pelo menos a noite… na madrugada. Porque meu pai grita… a gente não dorme com sossego. Quando está tudo quieto, eu fico apreensiva… fico pensando o que aconteceu… eles dormem o dia todo e a noite não sente sono, né?!

Minha nossa senhora…

É meu filho… ficar velho é complicado viu.

E a senhora não tem um irmão, não tem ninguém da família para ajudar?

Eu tenho meus irmãos, mas eles tem as coisas deles, né?! Somos em três. O mais velho tem filha adolescente, tem a esposa que também tem as coisas dela… o mais novo é descabeçado. Eu não casei, aí eu fico lá…

E quanto tempo faz que seus pais estão nessa situação?

Nossa, já faz mais de sete anos. E vai ainda mais sete viu? Aqueles lá tem uma saúde de ferro.

A minha vez de passar as compras chegou. Meu cartão estava com o chip sujo. Eu digitei meu cpf errado uma vez e tive que repetir. Depois, carreguei meu carro com as compras e fui embora. Quando cheguei em casa, tinha um daqueles panfletos de desconto dentro de uma das sacolas.

LUGAR DE GENTE FELIZ.