De quando ela queria fazer jornalismo

Então vou chamá-la de Isabela.

Tudo bem.

Isabela é repórter de rua. Responsável por trazer aos telespectadores os últimos acontecimentos da Zona Sul paulistana. Entendeu a reportagem como um conteúdo jornalístico, escrito ou falado, pautado em fatos, situações explicadas, histórias vividas por pessoas, tudo associado ao contexto de circulação. A reportagem televisiva tinha uma urgência que ela entendia a mais: valorizar o testemunho direto dos fatos; explicar as situações pela perspectiva de quem viveu a experiência. Imagens, sons, palavras, tudo a serviço da revelação de um mundo àqueles olhos vendados.

São tempos difíceis para os telespectadores.

Naquele dia ensolarado, tudo corria como o previsto: recebera da redação as primeiras ordens do dia e, conforme surgiriam os acontecimentos, o seu itinerário seria traçado.

Isa, vou te mandar o endereço da ocorrência. Rapaz suspeito de assassinar a mãe e esconder os pedaços do corpo em um lixo hospitalar.

 E lá ia ela e seu câmera para os fundões da Zona Sul.

Começo de carreira é assim mesmo.

A missão era identificar se o tumulto de curiosos estava controlado, tentar se infiltrar para resgatar algumas testemunhas, buscar o quem, como, onde e quando, registrar de dez a quinze segundos de uma sonora e se colocar disponível para a próxima pauta. Se enfiaram no Palio da redação e ela dirigiu até o endereço, guiada pelo waze de seu celular.

Passados meia hora, já estavam em uma estrada não tão larga, cuja paisagem identificava planejamentos urgentes e acidentais. Tal não foi a surpresa de Isabela quando notou ficar sem sinal no waze por uma pane no aplicativo Android.

Celular do diabo!

Não se assustava em caminhar por aquelas bandas, pois a seu juízo, estava assegurada com o colete e o carro da imprensa. Era só procurar o comércio mais próximo e perguntar pela rua da ocorrência. Narrar brevemente o acontecido, dar algumas risadas, contar com a simpatia local. A cidade do outro lado de lá, aquela das ciclovias e da avenida bloqueada para recreações, lhe ensinara a vida toda que, não fosse a tal identificação de imprensa, estaria perdida. Se mentira, se verdade, era o olhar de uma moça branca, de estudos paterno-financiados e de laboriosa escolha de leituras pela capa.

Achou um cantinho para estacionar bem em frente a um depósito de material. Daqueles que as pessoas mais se juntam para conversar do que para comprar. Lugar ideal para conseguir umas informações ou uma localização nativa. Infelizmente, este narrador não é um cientista sociolinguista. Ele não tomou o cuidado de relatar nem de perto o dialogo que correra, no distanciamento cultural entre os dois interlocutores. Nada que prejudicasse a compreensão mútua da mensagem. Era que em São Paulo, ainda existia, existe, existirá, aquele peso de tonelada sob a maneira que você puxa o R e substitui um outro sintagma. A cidade não tem mea culpa para quem não se adequa ao mais favorecido.

Oi… olá, bom dia.

 Bom dia.

 Então, eu tive um problema com o GPS do meu celular e não consigo achar essa rua. Vocês não conheceriam não, né?!

 Olha, essa rua fica duas quadras daqui. Está bem pertinho. Você vira aqui sua esquerda, faz o balão, volta um pouquinho, arruma um buraquinho pra parar e já tá lá.

 Obrigada, viu.

 De nada, senhora… ah, deixa eu aproveitar a senhora aqui,  por favor.

 Pois não.

 Então, a senhora é do jornal né?!

 Sou sim.

 A noite eu ajudo minha menina com um sarau da comunidade, aqui, sabe. Ela ajuda muito a meninada a escrever, ler, doa livros. Ela faz uma coisa bonita, com teatro, você precisa ver. Você não tem interesse de ajudar a gente dando uma palavrinha lá?

 Eu tenho um problema que minha agenda é controlada pelo pessoal da redação. Mas eu posso fazer uma sonora rápida com o senhor, pode ser?

 Todo mundo ao lado do senhor riu e se divertiu. Foram duas tentativas. A primeira ele pigarreou no endereço, confundiu o nome do evento com o nome do filho. A segunda saiu na naturalidade de quem já se acostumara com a câmera e o microfone. Dois minutos e a sonora estava lá, registrada.

Vou pedir para o pessoal colocar no jornal do meio dia, tudo bem?

 Muito obrigado, minha filha.

 E todos: obrigado hein! Valeu mesmo! Muito obrigado aí! Representou!

 Saiu da loja de materiais de construção. Seguiu o conselho do simpático morador e encontrou a ocorrência em tempo para realizar a filmagem. Cobriu naquele dia mais dez ocorrências, uma diferente da outra: escola sem professor, moradores insatisfeitos com falta de higiene pública, rua sem luz elétrica, bairro sem água.

A Zona Sul é um mundo que ninguém quer ver.

 No fim do dia, após transmitir todos os conteúdos para o jornal e após todos estes conteúdos irem ao ar, notou um triste acontecimento do destino: aquela divertida fala daquele simpático senhor fora substituída pela primeira ocorrência do dia.

Poxa vida… foi sem querer…