De quando ele achou que tinha domínio sobre Lilian

Então vou chamá-la de Lilian.

Tudo bem.

Lilian estava sentada na escadaria de uma rua de praça. Acabara de ter com ele. A conversa durou cerca de duas horas e podia ser resumida no acaso da vida propondo desencontros do afeto que ninguém quer assumir para não passar. Vinha na memória, não sabia bem porque, aquelas histórias sobre a juventude tempestiva, dos que não se apegam a nada. O coração apertava e agradecia ter sido ele o homem a tomar as rédeas na enunciação. Toda enunciação, aprendeu certa vez, é encenada com dois atores. Estava ele cá, ela lá.

Há uns três meses, lembrava com a cabeça entre os joelhos, caminhavam de mãos dadas no shopping. Passeavam muito naquele mesmo lugar e gostavam de, não raro, ficar na praça de alimentação, curtindo uma batata frita de fast-food e um milkshake cada um. Trocariam afetos… fosse o silêncio que tardava o tempo e não numerava nem pauta para discordar. Já que se viam todos os dias, não tinham novidades para contar. Também não conseguia, ao longo do dia, lembrar naquela hora, síntese ou prosa que viesse lhe interessar. Cruzasse um velho conhecido, dele ou dela, não parariam de falar. Às vezes, ficavam mesmo era torcendo por uma companhia, sem perder a deixa de encenar:

‘’Poxa, estão nos chamando para sair…’’

‘’Você vai se chatear?’’

‘’Ah, também faz tempo que a gente não marca de encontrar…’’

Desde quando começaram a namorar, esse silêncio era uma sombra imanente que se começou tímida, foi tomando corpo no silêncio… no silêncio do calendário. Lilian tinha dezesseis anos, era virgem e muito pragmática. Tudo na sua vida tinha que flexionar o tempo presente, seja nas interações, seja nas conquistas. Ele, por sua vez, era agostiniano sem saber: procurava no passado, no presente, no futuro… vasculhava nas memórias, nos dias passados e nos que vão vir. Ela, virgem, tinha isso para cuidar. Ele, precoce, precisava constatar o aprendizado, repertorizar o ato, para no futuro certificar-se um praticante exímio. Encontraram no sexo uma forma interessante de interação. Nada diferente de tantos adolescentes dessa nova geração que, menos ritualizados, sabem lidar com mais praticidade as angústias da emoção.

Deitaram juntos no quarto de Liliane, com um consentimento mudo e sem interesse de sua mãe. Tudo que imaginaram não correspondeu. Fosse um sorvete, ela se sentiu diante de uma expectativa não preenchida ao escolher a descrição e não ter correspondido a sinestesia.

‘’Eu quero de limão siciliano.”

Haviam lhes dito que o Napolitano era muito melhor. Enfim, fosse Liliane tão pragmática, jogaria logo o sorvete for; só que a polidez e a encenação lhe forçaram o contrário. Segurou a casquinha com a massa, até derreter.

Ele, diante da condição de uma escolha ruim, optou em jogar na fé a saída para o irremediável: há de melhorar esse sabor… há de melhorar esse sabor! Se para Liliane, cênica atriz em prontidão de ensaio e improvisação, a aparência era de uma experiência satisfatória, seria ele maçã podre? Peça mal encaixada? Engrenagem desparafusada? Como noticiar seu desconforto? Daí a peça toda durar longos três anos de expectativas, ansiedades e uma gastrite nervosa em cada envolvido desse trágico desencontro.

No fim, se encontraram numa praça eventual e deixaram as máscaras cairem. Ele falou o que sentia, sendo pela primeira vez pragmático. Ela ouviu e sentiu necessidade humano-amorosa de chorar. Chorou muito. Ele também. Eram três anos de peça montada… eram três anos em cena com uma parceria que, se não rendesse tantas expectativas, tinham um ao outro um querer bem de gratidão. Se abraçaram sem as caras que exibiam. Se abraçaram diferente. A última fala atuada foi uma pergunta dele seguido de uma resposta dela, na confusão trocada dos papéis:

‘’Você tem certeza que vai ficar bem?’’

‘’Eu não sei… vai ser difícil te esquecer… acho que é o tempo que vai dizer…”