Então vou chamá-la Eliza.
Tudo bem.
Eliza gostava muito de imitar seu pai. Quando pequena, há vinte e poucos anos, admirava o almanaque jornalístico de domingo e buscava entender como manusear os cadernos com pequenos cotocos que hoje são membros desenvolvidos, digitadores de notícias. Não seguiu em letra, ipsis litteris, o que fora o pai, mas seguiu na espiritualidade: conduzia a vida no repente sertanejo.
Sentada na sala de sua casa numa segunda-feira de manhã, cumpria as horas exigidas de si pra si para render bem naquilo que tinha como prometido: uma sequência de trabalhos para se fazer em casa. Manuseava um computador leve e batia duro nas teclas que formavam palavras, frases, textos. Na corrida da sobreposição de flashs de memórias, na melodia beatnik das dedadas duras de uma evolução da antiga máquina de escrever, gerava um Frankenstein sem pé nem cabeça.
Depois que esvaziasse as ideias, imprimiria aquelas páginas, grifaria o que não gostava, sintetizaria um pouquinho aquele monte de tranqueiras e jogaria o que prestava aos ventos. Como uma pirata que coloca um segredo dentro de uma garrafa e joga ao mar, ela alimentava um site de notícias de bilhetinhos noticiosos sobre a vida íntima de seu bairro.
Antes de imprimir o texto e começar o processo de caça aos lapsos desenfreados de ideias vilãs, tocou o telefone. Tudo simples e objetivo sem se identificar com nada na vida:
– Eliza, teu pai morreu.
Desligaram o telefone. Se quem ligara fora a tia, fora a mãe, fora o irmão… não sabemos. Se a mensagem durou explicações e mais explicações, votos e mais votos, condolências e mais condolências, teologia e mais teologia… não sabemos. O que sabemos é: teu pai morreu.
Cinematograficamente ela largou o telefone ao chão e sentou novamente no mesmo lugar que estava. Não sentiu correr lágrimas… não sentiu o coração apertar… no lugar de todo script de sofrimentos-quando-se-morre-o-pai ela lembrou das últimas palavras do pai numa conversa domingueira:
– Nesses anos todos, sempre senti vontade de tomar uma cerveja nesses bares que ficam em beira de estrada. Passar um tempinho ali, olhando o pessoal subir e descer a serra.

Rememorou uma ideia de que o cristão, seu pai, afinal não tivera cultura intelectual para lidar com a vida. Tinha glória, era culto, mas não abdicara a viver com propriedade aquilo que queria. Participou de uma comunidade que acreditava ter nas coisas aquilo que se segue. Temia o que ia, afinal, dizer os outros… fama, glória e todos os heróis… foram, naquele momento, por água abaixo.
O que sobrara a seu pai? Depois de morto… bom cidadão? Bom guerreiro? Viveu a vida no espelho que os outros refletiam sobre ele. Como seria lembrado pelos outros? O que era ele, afinal, para si mesmo? Temia tanto a impressão dos outros que suas ações eram fundamentadas por aquilo que seria provocado e comentado.
Virtude ou aparência de virtude? A purgação de Eliza estava em ver que em nenhum momento virara para si mesmo e buscara se autoconhecer como exemplar de alguma humanidade… com alguns limites… com muitas grandezas… e agora que fazia isso, sentia que as linhas de sua folha acabara.
No fim, o pai morrera com a vontade de uma cervejinha na beira da estrada…

Inspirado por: http://g1.globo.com/politica/ao-vivo/2016/1-maio-dia-do-trabalho.html