De quando escutava Strokers e se lembrou que tinha saudades

Então vou chamá-la de Julia.

Tudo bem.

Gozando de seus trinta anos e daquela costumeira necessidade de ganhar dinheiro para pagar o aluguel de um apartamento mal localizado na cidade de São Paulo, Julia se afastara muito daquilo que sempre gostava de fazer: sair com os amigos, papear, curtir sua namorada, papear. Claro que não deixara de vê-los, não perdera o contato, não se tornara uma eremita do sistema monetário, um Sims que só come e ganha dinheiro, mas as atividades diminuíram: se antes passavam horas de tédio olhando o movimento da rua, pela janela do prédio de sua melhor amiga, enquanto confabulavam futuros, hoje as reuniões eram espaçadas, de um em um mês, dependendo do mês, de dois em dois.

Em uma manhã de sábado, acordara porque tinha que cumprir os deveres pontuais de sua agenda: escrever um texto, de cinco ou seis laudas, sobre a memória em Santo Agostinho. Lera duas ou três vezes o Livro X, assistira a uns videos por streaming que explicavam muito bem as complexidades daquela obra, se encantara com o referente divino da cristandade sob a perspectiva teológica e tinha convicções de que religião era uma politicagem muito específica que não necessariamente alimentava os buracos da alma humana. Já compora ao longo da semana umas cinco laudas e deveria naquela manhã chata revisá-las e dar aquele gracejo acadêmico ao Frankeinstein que se formara.

Na mesma manhã de sábado, é importante dizer, sua namorada estava em Campos de Jordão a trabalho. Era junho, início de mês, e imaginava que lá estivesse muito frio; que lá estivesse muito cansativo; que lá estivesse relativamente animado, por conta da energia daquelas crianças tresloucadas com novas experiências; que lá, sendo monitora, sua namorada estivesse com o estômago embrulhado, revirado, desnorteado, dada as preocupações naturais de que nada aconteceria com o filho dos outros. Então, a manhã de sábado da Júlia estava muito chata mesmo!

Foi até a sala, olhou a cama vazia, olhou o céu nublado, olhou o topo daquelas casas de periferia, olhou a televisão desligada, olhou duas garrafas de cerveja vazia, pensou: que merda de dia…Colocou em streaming uma banda qualquer… esperou um start pra começar sua vida. Soou no ouvido, então, as batidas: someday, someday…

In many ways, they’ll miss the good old days

Antes de começar a revisar aquele compromisso acadêmico, caminhou até a cozinha e pegou do escorredor de pia, sua caneca do Breaking Bad.

Yeah, it hurts to say, but I want you to stay

Colocou o suficiente de água que transformaria em suficiência de café.

When we was young, oh man, did we have fun

Always, always

2 min. e 20 seg., a água ferveu no microondas, enquanto ela já posicionava o coador de papel, com o pó de café gourmet ganhado de presente de aniversário.

See, alone we stand, together we fall apart
Yeah, I think I’ll be alright
O apito de água fervida soou na sua cabeça e em segundos a essência do café perfumava todo o ambiente. Julia dizia sempre que fazer café era um ritual matinal: não bastava bebê-lo, era necessário curtir todos os passos de sua produção.
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