Então vou chamá-la de Hanna.
Tudo bem.

Nome incomum na Vila Nova Cachoeirinha. Nessa altura, também, como podemos classificar o que é comum? Parece que em tempos de desconstrução, até o prefeito da cidade anda experimentando novos papeis: empresário, gari, cadeirante, faxineiro urbano. Muita gente gosta… assim como gostam de Hanna. Garota popular no bairro que nasceu. Conhece cada esquina, assim como cada esquina a conhece. Poderia citar de memória nome e codinome de todas as ruas até chegar perto da Brasilândia, onde alertavam:

LÁ NA BRASA A COISA É QUENTE.

Não que não ia para a Brasa, só não conhecia com propriedade. Tantas festas por lá e sempre voltou completa: carteira, celular, documentos. Nunca passou um susto e nisso se sentia até um pouco sortuda. As áreas mais afastadas do centro tem seus desencantos.

Costumava andar na beca: brincos longos, roupas de estampas ancestrais, tudo que lhe dava um tom… tom a mais. Aquela cidade cinza precisava de cor, de vida, de um toque Hanna de existir. Cidade impossível de se ganhar sem ter tostão. Escutava as vezes aquela rádio tentada ao pluriculturalismo. A coluna de restaurantes era sempre tudo igual:

DADINHO DE TAPIOCA COM MOCOTÓ R$53,00, NA REGIÃO CENTRAL.

Dadinho de tapioca caro do cacete!

PLURALIDADE CULTURAL EM ALGUNS LUGARES É SINÔNIMO DE CARTEIRA CHEIA ENTRA, CARTEIRA VAZIA NEM SE APROXIME!

Zona Sul, Região Central, Zona Oeste… tudo beca que não sentia vontade de vestir. E quando dizia isso, parecia que as próprias pessoas da Cachoeirinha gostavam de rir:

TEU CU, HANNA! VOCÊ NÃO VAI PORQUE NÃO PODE!

A liberdade e a dignidade de ser Hanna. Isso também era muito inconsciente… ela gostava daquilo ali, sem pensar reduzidamente. Queria era que a galera do largo – gente da tua idade que conhecia desde pequena e ensaiava em um estúdio caseiro perto do Japonês – entronasse numa rádio, tivesse canal de youtube com acesso para mais de milhão, que recebesse convite para ganhar a vida em tantos lugares… queria também que tua mãe, com 70 anos quase completos, não precisasse se foder tanto para provar que tinha aquela idade que declarava toda vez que fosse pegar os remédios para pressão.

AQUELES OLHOS TORTOS DE QUEM ACHA QUE A VELHA TA DE ZUEIRA, PEGANDO O QUE NÃO PRECISA.

Queria trampar em um lugar que pagasse minimamente bem e garantisse suas férias anuais sem deixar nas entrelinhas que sua saída estava fodendo toda a logística da empresa. Queria contar que se ficasse doente seria bem atendida, com médico minimamente formado na especialidade e na humanidade. Queria tomar um chop a mais e conseguir bancar o aluguel e o condomínio. Estudar marketing para dar um up no seu sonho de agenciar a galera do largo. Extinguir o fantasma da culpa broxante:

VIDA MERDA QUE PASSA SEM PARECER QUE FOI.

Resumidamente, queria continuar morando na Vila, sem tomar tanto no cu.

Tinha dias que saía do trampo com uma vida que não valia a pena ser vivida. Parecia que carregava uma tonelada de pedras nas costas e aí lembrava:

CARALHO! EU SOU A HANNA DA CACHOEIRINHA! BORA IR LÁ PRO LARGO! SE FODER COM ESSA PORRA TODA!

Tomava umas e outras com a molecada, ficava ali, jogando papo fora, esperando o dia passar e a vida voltar. Sentia asco de ficar na merda. Aquilo era dela. Tinha uma prima que não se importava em ser qualquer bosta. Nascida e crescida na mesma casa. Tomava uns remédios controlados e algumas vezes enfrentava a mesma fila da tia. Prima que guardava dinheiro. Guardava tudo que ganhava, ou quase tudo, vivendo uma porra de uma vida precária. Entendia o Brasil como a periferia do mundo, porque não se permitia conhecer nada além da rua que morava: tinha umas ruas na Cachoeirinha, como a de Hanna, que ainda estavam naquele dilema de 1980: cheiro de merda do córrego não canalizado. Tudo isso somava na prima um medo danado. Medo até da própria sombra. Ela e o namorado. Viviam os dois, um em cada quarto.

DO JEITO QUE É FODIDA, SÓ ESCOLHE SAIR EM DIA NUBLADO.

E tinha um jeito engraçado de sintetizar a Vila: aqueles que ralam de um lado, Hanna e todo o resto de filhos da puta de outro. Excluía sem dó nem piedade e isso dava um tom agressivo nos jantares raros, mas familiares. Hanna, de um lado, forçava a amizade e se dizia camarada até de quem conhecia de sombrancelhada. A prima, sem se esforçar, só executava a fórmula do sucesso, necessária à manutenção do bem-estar: gay, trans, mulher, pobre, negro, imigrante, filósofo, migrante, artista, comunista estão todos errados!

EU QUERO A MINHA CIDADE LINDA.

Foi então que certa vez, numa dessas refeições saudáveis de domingo a noite, entraram na pauta musical: Mc Linn da Quebrada

CIDADE DE DOIS CORPOS: O FEIO E O BONITO, O CERTO E O EQUIVOCADO.

Foi como chegar no limite do binarismo da prima. Hanna pegou uma tesoura maternal e cortou aquela fina linha de barbante que ligava o telefone de garrafa-pet que permitia a comunicação entre as familiares. Foi um corte consciente. Hanna sabia que aquele gesto refletiria em negações terríveis da prima. A prima, daquela forma que fora interpelada, não estaria disponível a uma negociação intelectual.

Pelo celular, hoje em dia, conseguimos fazer coisas incríveis como emparelhar um vídeo de youtube no meio da programação televisiva da Rede Globo. Foi o que Hanna fez. A prima estava concentrada na programação dominical e de repente:

SE ACHOU O GOSTOSÃO / PENSOU QUE EU IA ENGOLIR / SER BICHA NÃO É SÓ DAR O CU / É TAMBÉM PODER RESISTIR

A censura da prima sintetizou em ofender a sanidade de Hanna, bem como o alinhamento moral que encarava as coisas:

Você tá ficando louca, sua maloqueira do caralho?

Hanna fez o que fazia quando se encontrava em situações de conflito:

Ah! Para de ser assim, menina! Isso é música! Você não gosta de música?

Então a prima reunião todo seu aparato crítico-musical, multi-semiótico e monocultural:

Música? Isso é uma bicha magrela gritando baixarias! E você fica dando dinheiro pra ela! Volta na porra da TV!

Indiferente ao que é esperado, Hanna levantou-se de onde estava.

Vou dar uma volta. Você é muito atrasadinha!

A prima, em seu confortável castelo, voltou a assistir o Domingão do Faustão.

Louca do caralho!