De quando Helena viveu High And Dry

Então vou chamá-la de Helena.

Tudo bem.

Antes de qualquer coisa, seria interessante que você lesse essa história escutando High and Dry do Radiohead. Te incomoda?

De forma alguma.

Então, vamos lá…

Helena estava com um vinho barato e um pacote de Cheetos na mochila. Era fim de mês, no meio daquele mês. Acabara de receber uma mensagem chata pelo celular:

NÃO CONSEGUIREI VOLTAR CEDO HOJE. DESCULPE.

Não raro isso acontecia, pois sua namorada nunca dizia não para quaisquer oportunidades de uns trocos a mais. Só que ela precisava muito de um cheiro e um abraço naquele momento.

DECIDIMOS DIVIDIR AS COISAS… MAS O TEMPO DAS COISAS NÃO DEIXA NADA SER DIVIDIDO.

A cabeça de Helena era uma cabeça complicada. Libriana, sem nascer em setembro: coisas que não faziam muito sentido, mas o povo gostava de soltar. Queria um cheiro, um abraço. Por duas vezes, aquele dia, tentou vender os produtos do catálogo. Ela entrara no discurso da pirâmide.

PEGAM A GENTE PELO DESESPERO.

Não tinha tato para aquilo. Seu cheiro, seu abraço insistia que ela devia era dizer foda-se a tudo e investir no que gostava: plantar coisas, cuidar de seus orgânicos. Mas foram duas semanas se sentindo muito sozinha, porque para conseguir se concentrar nos seus sonhos, a namorada teve de estar longe… dobrando turno. Parece que a vida é realmente um lençol curto: se cobre o rosto, descobre a perna. Seu coração estava, naquele dia, gelado. Sem borboletas no estômago.

EU NÃO VOU CONSEGUIR NADA COM ESSA PORRA… VOU VENDER ALGUMA COISA, TRAZER DINHEIRO PRA CASA, TER MAIS TEMPO COM QUEM EU GOSTO… FODA-SE OS ORGÂNICOS!

Não conseguiu. Não tinha tato para venda. É muito complicado quando a tempestade que brota dentro de você, não dá conta de regar nem um pouquinho o seu jardim. Era assim que se sentia: como nuvem carregada, prestes a desaguar. Saíra de casa cheia de gás, voltara com um vinho bosta e um Cheetos de queijo. Gastara o que ganhara.

Rodou a chave da porta de casa, na expectativa de uma surpresa. Entraria na sala, veria jogado no chão o capacete de moto, escutaria o som do chuveiro. Sinestesias de seu cheiro, seu abraço. Sentou no sofá, desarrolhou o vinho e abriu o pacote de Cheetos.

E ELA VOANDO EM SUA MOTO… APOSTO QUE ACHA ISSO MUITO INTELIGENTE.

Notou que a sala continuava a mesma, a programação na televisão não mudara. A ordem das coisas, os catálogos de produtos encalhados e indesejados, o tic-tac do relógio de parede atingindo seu cérebro… tudo a mesma merda. Ela tomava o mesmo vinho e comia o mesmo Cheetos para resolver o mesmo chilique existencial de duas semanas atrás. Olhou para a garrafa, como única companhia interlocutora no momento:

NÃO ME DEIXA CHAPADA… NÃO ME DEIXE SECA…

Antes mesmo que começasse a permitir que o vinho vasculhasse suas entranhas e desse vazão para tudo que estava lhe incomodando, todos aqueles pedaços fragmentados que constituíam Helena vieram a tona na correnteza de seus olhos. Sentia que estando juntas só por alguns minutos antes de cada uma se recolher em seu silêncio, deitar e dormir, a coisa mais significativa que tinha se esvaia como fios de água corrente em torneira aberta.

NÃO ME DEIXE SECA… SÓ NÃO ME DEIXE SECA…

Disse ao vinho, deitada em seu sofá, no clichê hollywoodiano, em posição fetal.