De quando Jacinta teve a visão

Então vou chamá-la Jacinta.

Tudo bem.

Jacinta tinha a impressão de que sua vida começara no casamento. Já há quase uma década com seu parceiro, casada desde os 18, desfrutava de seu vigésimo sétimo ano de vida com a disposição de uma devota: acordava cedo, aprontava marmitas, lanches da manhã e da tarde, postava-se na sala, escutava o noticiário da primeira hora do dia e aguardava o despertador tocar. Caminhava no quarto de um, cutucava um pé, no quarto de outro, amansava os ombros e beijava a testa. Filho e pai caminhavam até a cozinha, pegavam seus pacotes, iam para mais uma jornada do dia.

Passava a tarde buscando visão. Lia muitos textos nas entressafras de um serviço e outro. O marido, ganhando o dobro, não precisava de dois trabalhando. O filho, questionador do mundo, precisava de um corpo vigilante. Jacinta dedicara a primeira experiência sexual à gravidez e o fim da sua terceira década de vida ao lar. Formou-se em Letras nem sabia para quê. Então lia… lia… procurava nas leituras a visão.

Numa sentada de bobeira, entre um aspirador e um cheiro ainda cedo de feijão, escutou:

‘’Filha minha, adverte que te chamei pelo caminho da minha cruz, eu que em toda vida padeci e que só pus a cruz aos ombros quando quis acabar a obra da redenção, a que vim ao mundo. Te convém a ti e a minha glória que ti quero ter, que tomes a cruz por mim aos ombros; vê quero que entres a acabar a minha obra, vê, que te tenho dito, que a quero a custa do teu trabalho.’’

Ficou atônita com aquela voz. Não era de nenhum conhecido. Não tinha ninguém em casa. Não era nenhuma piada de mal gosto do filho ou do marido. Era uma voz… era uma voz…

Aguardou ansiosa o primeiro a chegar. Foi o marido. Semblante cansado, cabresto maquínico de um trabalhador vencido pela jornada, sentou no sofá e estranhou a companhia do seu lado: olhos de quem queria prosa.

‘’O que foi? Aconteceu alguma coisa?’’

‘’Aconteceu.’’

‘’O que aconteceu?’’

‘’Eu tive uma visão…’’

‘’Que visão? Do que você tá falando?”

‘’Eu tive como uma visão… era uma visão sem forma, mas era como se eu visse. Não tinha nada de forma assim, mas era carregada de muita certeza…’’

‘’O que?’’

‘’Ela disse assim: filha muito amada, sempre mais esforça tua alma, não te perturbes; importa o padecer daqueles em quem descansas… alguma coisa assim.’’

‘’Jacinta… eu não to entendendo nada…’’

‘’Não sei… eu acho que era coisa do tipo: os jejuns, eu ainda os estou observando e nos dias que comi galinha, que foram bem poucos, guardei a forma do jejum, o qual em mim não é mortificação por ser quase um hábito de toda a vida… acho que era isso…’’

‘’Mas… como assim, vozes? Que galinha?’’

‘’Vozes… de alguém falando…’’

‘’Tinha alguém aqui? Mas você fez galinha?’’

‘’Não… eu não vi ninguém. Eu estava cozinhando feijão’’

‘’Que coisa doida.’’

Retirou do bolso de sua calça um celular.

‘’Toma, Jacinta. Se você escutar esse negócio de novo, você grava…’’

‘’Você está tirando uma com a minha cara?’’

E os dois se colocaram a rir de toda a situação. Passado o dia seguinte, depois de dois dias, uma semana, um mês, Jacinta não reencontrou mais voz alguma. Desimpressionou o acontecido e ficou tudo por isso mesmo: deve ter sido coisa da cabeça.