Então vou chamá-la de Jade.

Tudo bem.

Caminhava por aquelas bandas com o semblante meio adoentado. Vultuosa… trafegava nas sombras, dirigia seu dia na penumbra. Enfermiça… lamentava sempre algum cuidado, do mais bobo ao mais delicado, tudo se resumia às necessidades de um abraço. Pálida… não tomava sol nem por decreto, com medo de dar algum problema, da alergia dos raios ao câncer de pele. Indisposta… especializara com o tempo nas desculpas mais caprichosas para evitar um chopp com uma amiga até um churrasco de reencontro.

Quando tinha lá pelos seus vinte e cinco anos, dois anos antes do aqui tratado, formara economista. No mesmo ano, não na mesma semana, mas quase no mesmo mês, fora promovida à gerência de uma multinacional e se afastara completamente das contas que tanto amava. Dada sua facilidade com idiomas, fora preencher qualquer coisa na área de comércio exterior e pela falta de vontade para explicar, ninguém sabia muito bem se quis, se não quis, se era bom, se não era.

A mãe perguntava:

Será que alguém abusa dessa menina, pelo amor de Deus?

Cada cara, cada carranca. Malacafenta, chamaram ela um dia. Mofina! Morrinhenta! Acabadiça! Vivia era de prumo alto, para esconder a baixeza do corpo envergado, diante de tantas pedras nas costas. Uma tonelada era pouco.

Certo dia, se deparou com uma estranha aporia. Digo aporia, pois envolve toda uma conflituosa forma de ver o mundo, impedindo os interlocutores de expressar palavra que queira, sem pesar pra si o valor binário daquela sentença. Transitava em sua rota fixa, quando chutou de bico um toca-disco abandonado. Na rua, sem quaisquer condições de uso. Olhou o objeto, olhou pra si e por segundos que viraram minutos, perdeu a hora e o prumo do tráfego. Perdeu uns minutinhos do ponto do trabalho. Espantou colegas de baia, não pelo atraso, mas por quem atrasava… agarrou o toca-discos e levou para o escritório… depois para sua casa. Decorou o quarto com aquele objeto usado.

No dia seguinte, saiu no mesmo horário, mas desistiu do mesmo caminho. Percorreu a mesma rua, na mesma hora e não tinha expectativas de chegar no trabalho no mesmo horário. Passou a admirar cada canto e cada esquina. De fora, o mesmo luxo, a mesma crina. Por dentro, um bombardeio de segunda guerra… nada… nada de nada… andou… andou… cansou… trabalhou… trabalhou… saiu no mesmo horário com o mesmo temperamento… decidiu, na diferença de tudo que vivia, voltar para casa só quando queria. Desviou totalmente a rota do retorno até encontrar uma caixa de madeira vernizada com o fundo comido de cupim. Se não era aquela, era muito parecida… já servia… decorou, além do toca-discos, seu quarto, a caixa apodrecida.

Passou, então, meses nessa rotina. Na busca por uma definição da vida, achou o gosto de ser no trabalho, Jade, a economista, na vida, Jade, a caça-tralha. Roupa fina, estampa rara, prosa em língua estrangeira, todos os atributos de um semblante ralo, invertido na revelação de uma criança que se divertia em colecionar trecos velhos… trecos de uma necessidade… trecos… trecos… em menos de um ano, a casa hospedava sucatas… objetos vazios… raridades de momentos… Jade não mudaria seu semblante para o mundo jamais. Nunca… nunquinha da Silva. A malacafenta era um papel… a caça-tralhas, a busca incessante de uma identidade…