De quando Kamila resolveu revidar na hora errada

Então vou chamá-la de Kamila.

Tudo bem.

Era 12:45AM.

Em acesso de fúria, Kamila decidiu levantar e tomar o aparelho celular de um estranho, mesmo que a força. Em seguida, daria um soco na cara do que ela adjetivaria filho da puta e arriscaria outros adjetivos heterofensivos para identificá-lo! Um ou outro objeto poderia lhe alvejar o corpo, mas não deixaria aquilo passar em branco. Não… não… não…

‘’Aí, caralho, devolve meu celular!”

Voltemos para 12:00AM.

Kamila aguardou quinze minutos para ser atendida e fazer seu pedido:

‘’Eu quero um número 2, refrigerante e batata grande.’’

‘’Débito?”

‘’Débito.”

Retirou a bandeja, caminhou até uma mesa de dois lugares e sentou para mais uma refeição calórica. Sabia a potência do carboidrato frito nas veias de seu coração e, por isso, naquele dia saciaria a terceira vez no ano, estando em mês de junho, de um número calórico e completo. Para ela, eterna apreciadora dos fast-foods tradicionais, trabalhar no mesmo prédio de um Mc Donald’s era uma tortura e, também, um teste de força de vontade por dia.

‘’Ai que cheirinho bom…’’

Ao fim do apreciar da segunda mão de batatas-fritas iniciou a primeira ruptura com um cotidiano trivial em um almoço de vizinhança comercial: adolescentes… vozes de adolescentes invadiam o burburear adulto do local. Três ou quatro eram suficientes, mas naquela ocasião, foram uns dez. Todos contraventores da ordem imposta e da construção proposta, em primeiro ato misturaram a fila de quem paga com a fila de quem retira.

Acontece que Kamila não era uma qualquer Kamila. Todo mundo tem uma história e ela não ficava para trás: vivera vinte e cinco anos de vida e vinte e cinco anos de eventos, de rotinas e de acontecimentos. Quando fez ensino médio, tolerou pouco os meninos e ainda menos as meninas. Se relacionava com quem permitia seu silencio e focava em não se expor para não ganhar evidencias.

‘’Essa menina é quietinha…’’

E a adjetivação foi assim até a faculdade, quando um reviravolta aconteceu na sua vida e ela conseguiu encontrar conforto em conversar com pessoas. Durante todo o curso conviveu com os meninos, conviveu com as meninas. Se apaixonou por ambos. Foi feliz e conseguiu harmonizar, ao longo da trajetória até o degustar daquelas batatas-fritas, momentos bem intensos de alegria.

Quero deixar claro que Kamila não tinha nenhum transtorno freudiano. Não tinha pai que a imaculara quando pequena, nem mãe desconfortável com sua existência. Nada disso… nada disso… Kamila entrava perfeitamente na prateleira das pessoas triviais… normais… cotidianas… dada as complexidades das experiências.

Voltando aos adolescentes… sentaram todos nas mesas localizadas à direita de Kamila. Dedicados a experiência do autoconhecimento de seus limites, fotografavam uns aos outros e vomitavam destaques do pênis de um e da prostituição da mãe do outro. Conviviam entre si em homogeneidade, embora há de considerarmos toda a diversidade latente em uma geração. Infelizmente, naquele grupo nada havia.

Um dos exaltados, inspirados pela internet e seu catálogo de voyeurismo, dedicou um pequeno momento de atenção para uma manobra ousada: levantou da mesa e lentamente, sem que Kamila percebesse, caminhou a seu entorno.

Naquela altura, Kamila já experimentava o sanduíche. Tinha um ritual interessante para os fast-foods: primeiro as batatas, depois o sanduiche, tudo sob a administracao de goles nem tão curtos, mas nem tão longos de seu refrigerante. Foi incapaz, dada a meditação contemplativa do sabor do bacon misturado com queijo, de notar qualquer tipo de invasão de liberdade. O ninja-adolescente, aproveitando de uma distracao, adotou ação traidora típica dos gatunos: registrou no rolo de memoria virtual de seu Iphone 6 o decote que marcava os seios de Kamila.