De quando Leticia pensava que era melhor que Macabea

Então vou chamá-la de Leticia.

Tudo bem.

Leticia estava envolta de trabalho. Tantos papeis forravam a mesa de vidro de sua sala que não lembrava se aquele era um tampo fumê ou transparente. Os copos de café já estavam todos sujos e ela começou a usar os descartáveis para não perder um minuto de produção. Precisava deixar tudo pronto para entregar na segunda-feira. Segunda-feira. O prazo máximo dado pela sua contratante. O job! Não podia desperdiçar aquela oportunidade, porque daquele viriam mais Jobs. Jobs.

Jobsjobsjobsjobsjobs.

Seu computador, parcelado em quinze vezes no cartão de crédito da namorada, iluminava por iluminar: tudo que pensava eram mixarias que não davam conta de revelar o que queria naquela amplitude de escuridão. Precisava de uma boa capa, de uma boa introdução. Precisava tirar da mesmice aquela linha de produção. Café, café, café. Só café sem nada de pão. O produto final… porque diabos deixaram tudo aquilo na tua mão?

Desmanchara o livro inteiro pela terceira vez. Qual parte virá primeiro? Dos ingredientes, ou da preparação? Se eu inverter isso, será que chamo mais atenção? O marketing tem dessas coisas… a vida tem dessas coisas… eu entrego o mesmo, distorcido com diferenciações.

´´Receitas para lá de diferentes, de Angela Vieira.´´

A cada abertura de capítulo, uma curiosidade cultural extraída do google:

‘’Você sabia que o Cupuaçu é o fruto de uma árvore amazônica da família Sterculiaceae, parente do cacaueiro?’’

ou

‘’Aprenda mais! O Bacon é sinônimo de toucinho defumado e um dos personagens indispensáveis no café da manhã de muitos povos anglo-saxãos.’’

ou

‘’Não se esqueça! O tomate é um fruto do tomateiro e em sua família também fazem parte as berinjelas, as pimentas e os pimentões.”

Angela Vieira, a apresentadora de televisão. Essa filha da puta nem sequer encosta a mão no tomate que a preta do seu lado descasca. Angela Vieira não acertava a porra de um aposto. Angela Vieira tinha olheira e precisava de photoshop em cada ilustração. Angela Vieira conversava com uma porra de um fantoche de animal silvestre na televisão! E eles contam piadas e fofocas que você recebe segundo a segundo de seu grupo de trabalho do whatsapp.

‘’Querida, faça-me o favor de deixar tudo isso pronto até segunda-feira. Até segunda-feira! Pelo amor de Deus, quanta enrolação!’’

‘’A senhora me desculpe, Angela Vieira.’’

Naquele mesmo dia, a avenida paulistana que dava para a janela de seu apartamento contava com uma multidão significativa de professores.

‘’Daqui a pouco enche de polícia e aí fodeu de vez.’’

Sentiu a cabeça engasgar e as palavras se perderem no universo. Caminhou até o banheiro. Abriu a torneira de água quente para encher a banheira. Jogou um pouco de sais e sabão para espuma.

Caminhou até o quarto. Retirou sua roupa, a dobrou e deixou em cima do colchão. Só havia abajur do seu lado de deitar. Também contava com três volumes de uma coleção que custava para terminar.

‘’Há dois anos e eu não sei nem porque comecei a ler sobre filosofia pós-estruturalista.’’

Na parte debaixo de sua cama, reservado ao local que deitava, longnecks vazias e pacotes de salgadinho intermináveis revelavam parte significativa de um cérebro difícil de descansar. No quarto, tinham um frigobar! A namorada lhe deu de presente para que Leticia não precisasse andar como zumbi nas madrugadas de insônia. Retirou uma garrafa de champagne.

‘’Ela vai me perdoar. É para terminar um job.’’

Voltou para o banheiro e o espelho estava tomado pelo vapor. Não conseguia ver direito seu reflexo. Como de costume, fez com o dedo uma estrela e a pintou por dentro. Se viu na penumbra, entre o vapor e o iluminar da estrela que sumia.

‘’Vou relaxar um pouco e terminar essa porra.”