De quando Manu lembrou de uma canção iorubá… uma referência à ilê ayiê

Então vou chamá-la de Manu.

Tudo bem.

Manu sempre gostou das músicas afrobrasileiras. Encontrava nelas a força espectorante para lidar com a vida e os acontecimentos que lhe fugiam do controle. Parecia que o dia era assim: começava azul, quando ouvia a voz cantada de um lírico-orixá lhe falando aos ouvidos palavras de acalento. Então podia caminhar o dia na turva nuvem cinza, que parecia lhe tomar conta a força de Dandara: nada lhe envergava. Permanecia em pé. Então não faltava, nas listas e listas de seu spotify, cantos e mais cantos iorubá.

Numa tarde de terça-feira, nessas que encerram mês de agosto e carregam consigo um mar de raios e trovões, voltava do trabalho. Gostava daqueles fones discretos, mas que tinham a potência de isolá-la do mundo de lá e afundá-la no mundo de cá. Dois mundos… eita mundo de dois mundos. Entrou no metrô como de costume e iniciou o itinerário de volta para a casa. Notou, porém, que o metrô contava com caras novas. Todas as caras eram novas. Brancas, negras, pardas, novas. Todas novas.

Embora tanta gente diferente sempre se entreolhava e se esbarrava, percebeu que a terça-feira transformara todos aqueles transeuntes em gente nova. Mesmo sem saber, o branco ficou mais branco, o negro bem mais negro. Acentuadas as diferenças, as pessoas mudaram. A terça-feira alterou o fluxo das oportunidades de quem estava sentado e de quem se mantinha em pé. Eita terça-feira maldita! Fosse só um dia a mais de trabalho, não seria tão duro assim.

Perplexa, olhando de cá e lá, dos mundos e dos conglomerados, o que sobrava era o silêncio de todo aquele bando de desafortunados. Tanto os que estavam em pé como aqueles que estavam sentados. O susto foi tamanho, que esqueceu de colocar a canção iorubá de costume. Os fones estavam calados, assim como o silêncio que imperava aquele dia nublado.

Mas Manu não era aquelas pessoas de sentir calada. Gostava era de colocar a cabeça para funcionar. Para quebrar o silêncio, começou a sussurrar uma musiquinha tímida que avó da avó cantava pra avó que cantou também muito para ela:

Cada pedaço de chão,
cada pedra fincada,
um pedaço de mim
Ilê Aiyê
O povo Bantu ajudou
a construir o Brasil

Ficou nesse verso repetido… repetido… repetindo… repetindo… até que a voz embargou. Engasgou… Elevou… Elevou… Elevou… nisso já estava bem pertinho daquela tal Estação Liberdade. Solidão travestida de igualdade… aquele era um bando de pessoas inacessíveis que andavam de cá pra lá entre mundos estranhos de complexas vaidades. Tudo bem… tudo bem… naquelas telas de comunicação da mídia do metrô já tinham avisado de umas mudanças que aconteceriam num mundo de lá. Quem é que imagina o buraco que essas coisas vão despertar?

Enquanto continuava cantando, com o trem parado na estação, foram surgindo pessoas que colocavam nas suas roupas ou onde conseguiam pendurar, uns trocados marcados: dinheiro de pinga! Manu não negou o gesto. Era a única afetividade aparente de toda aquela gente, de pé, sentada, semblante de honesto. Sorrisos mínimos, ausência de quaisquer outros gestos. Foi quando percebeu que, das pessoas que entravam daquela estação, muitas cantavam o mesmo refrão. Então, Manu continuou… na tentativa de somar.

Inspirado por: https://www.letras.mus.br/ile-aiye/1512240/