De quando não sabemos o que fazer quando crescer

Então vou chamá-la de Renata.

Tudo bem.

Renata terminara aquele ciclo obrigatório de estudos e precisava escolher o que fazer. Um clichê da vida moderna burguesa paulistana. Interessante é que o clichê, quando dito assim, automaticamente é destinado àqueles bufões das regiões mais centrais. Não. Renata mora na Vila Nova Cachoeirinha, nem tão extremo, nem tão centro, o suficiente para passar batido.

A GEOGRAFIA URBANA É DETERMINA ACESSO NA CIDADE DE SÃO PAULO!

Não desempenhara no Ensino Médio aquilo que lhe identificaria um rumo. Gostava de humanas, tanto quanto tinha dificuldades para as contas em exatas e equiparava tudo isso ao horror nutrido pelos estudos da natureza e dos fenômenos químicos. Passara três anos de sua vida na indecisa condição das três estruturas.

Dedicava os fins de semana às cervejas com amigas. O ócio individual não era mais tema de legislação em 2017. Ninguém em São Paulo é preso por vadiagem – entenda vadiagem em sentido lato, sem a imposição dessa sua cabeça binária e um tanto quanto erótico-sexualizante que eu sei que você tem. Embora casos de polícia corriqueiros na Vila Nova Cachoeirinha tinham como pano de fundo o argumento SÓ DISCURSIVO do ócio profundo.

ROUBOU POR QUE NÃO TEM NADA PARA FAZER!

Ócio: pura questão privada, assunto relevante só a ela, parecia que, em sua casa, o destino de Renata tomava projeções extravagantes, a ponto de mensurar debates críveis de uma CPI ou um julgamento de impeachment: bufões falando a deus dará e nenhum ouvido disponível a escutar. Matéria de mais alto interesse político na casa de Renata, o tema o que vai ser dessa menina trafegava entre as condições morais daquela súdita e o seu envolvimento ético e crível com o Deus do momento: o progresso e a estabilidade financeira. O engraçado é que encontrar uma ocupação para Renata sempre fora, na cabeça de seus pais, distanciá-la do ócio e da indolência: compatível a uma solução botequeira de como solucionar o problema do crack na estação da Luz. Na casa de Renata, brigar contra a vadiagem era uma forma de ordenar o considerado desordenado.

VOCÊ TÁ QUERENDO O QUE DA VIDA, PORRA?! TERMINAR NA CRACOLÂNDIA?

Certa vez, uma de suas amigas, já rumadas em uma trajetória exemplar, serviu à mãe de Renata como munição de um policiamento moral. Vale ressaltar que a polícia, ou policeyordnung, significa ainda hoje naquela casa uma ordenação vigilante do bom governo, da boa ordem, da civilidade. O tiro atingiu as têmporas da considerada menina sem rumo, fervilhando-lhe a testa e lhe deixando meio abobalhada:

Tia! Te contei que vou morar em São Carlos?

Não acredito! Jura?

A Re não te falou nada?

Não…

Eu passei na Federal…

POW! (SEMELHANTE AO ESTAMPIDO DE UMA DOZE TARANTINESCA ESTOURANDO OS MIOLOS DE RENATA)

Não que a amiga lhe queria algum mal… longe disto. É que comentar essas coisas na presença da mãe, despertava um murmurar silencioso, mais simbólico do que verbalizado, daquilo que um tem e o outro deixa a desejar. Jamais, na casa de Renata, ela própria poderia deixar a desejar diante das amigas. Isso desde criança. Regra imposta pelas sobrancelhas do pai e da mãe. Regra nunca verbalizada.

CARALHO DE MENINA!

Daí aquele turbilhão de coisas passaram na cabeça sorumbática de Renata. O importante em ter o que fazer, é que o ofício lhe distancia da regularidade da mendicância e da esmola. Tinha a impressão, quando exaltava quaisquer angústias emotivas ou desejos materiais, que seus pais lhe ofertavam atenção como a um mendigo.

POBRE DIABO NÃO SABE O QUE QUER DA VIDA!

Enquanto eu não souber o que quero, vou continuar nesse estranho purgatório que não me coloca nem no céu, nem no inferno.

Daí justificou, talvez, a pergunta que emendara a amiga:

Mas você tem certeza?

Certeza de que?

De que é isso mesmo o que você quer…

A mãe quebrou o silêncio com, talvez, uma máxima decisiva:

Eu acho maravilhoso. Sempre tem gente precisando de psicólogo… e você pode abrir seu próprio consultório… essas coisas de querer, a Renata tem que entender que a gente descobre depois.

A amiga, talvez por educação, talvez por conformação:

Sim… verdade. E eu sempre quis ser psicóloga. Desde pequenininha.

O estômago de Renata se transformava em cimento quando ouvia esse tipo de assertiva. Desde pequenininha ela não fazia exatamente ideia alguma do que queria da vida. Nunca. Fosse ela um E.T., já teria uma ocupação definida: buscar caminho de volta para casa. E novamente se reencontrou, naquele diálogo, com o fantasma da vadiagem.

Quer dizer que se eu decidir ser puta, entro na regra da minha mãe.

Não tinha motivos aparentes para se stressar: aquela era mais uma conversa normal… diária. Só que na cabeça de Renata, havia sempre alguém precisando de uma puta. Claro que o ímpeto de pensar na prostituição era sinômino de protesto vazio, de quem, quando em conflito, procura saídas explosivas e gerais para as coisas. Não meu caro leitor, as garotas da Vila Nova Cachoeirinha não são naturalmente coibidas à prostituição. Eu sei que é difícil, estando em seu castelo particular, conceber que uma mulher não opte por essa vida, mas tenha certeza que isso acontece. Confie em mim. A prostituição era, na sua vida, uma condição impossível de existência, dada a bolha que fora criada. O máximo que ouvira  em seu mundo, travestia o ofício como:

A vida fácil, de conduta reprovável, que o outro se submete.

No fim, Renata parece muito com você, caro leitor. Não… Renata jamais seria puta. Mas o campo semântico de puta em sua casa era mais vasto do que o previsto em um dicionário. A cultura tem dessas coisas… aplicava-se o valor de puta o fato de ser cineasta ou poetiza, por exemplo. Optar por quaisquer ciências humanas que não as que envolviam mercado financeiro ou as leis… algumas coisas das exatas que não repertoriariam grandes fortunas… das biológicas, que envolveriam não ter uma rotina satisfatória e também as malditas grandes fortunas… mal sabia Renata que a máxima

sempre tem gente precisando de…

não era critério em sua casa para o combate ao ócio. A puta surgia naquele lar como uma forma de vida reprovável. Muito reprovável. E o

sempre tem gente precisando de…

contava com um termômetro ético e moral que ia do aprovável à puta. Viu como ela se parece muito com você?

Renata, então, não podia ficar sem resposta. Não podia deixar de comentar qualquer coisa. Concluiria sua trajetória até aquele momento com uma saída genérica, mas talvez engenhosamente aceitável, que trilharia as estratégias de seu semestre, ano ou até mesmo parte significativa de sua vida burgueso-paulistana:

Vou fazer uma conta na Catho ainda essa semana… e acho que me inscrever nesses cursinhos que preparam para Concursos Públicos.

Nossa! Você sabe que também penso em fazer isso, quando terminar psico? Tem um monte de gente que faz isso, né?!

A mãe sorriu de orelha a orelha. A Catho era um site confiável e ela poderia monitorar sua filhote a não se submeter àquelas vagas de puta. Seriam felizes. Com certeza seriam felizes.