Então, vou chamá-la de Madalena.
Tudo bem.
Madalena tem 32 anos e costuma ir de metrô à consulta com seu psicólogo. O encontro e o coloquio menos importam aqui do que o percurso que ela faz de seu trabalho até a clinica e da clinica até sua casa. Sempre em pé, agarrada naqueles apoios de metal, ela costuma observar o tempo dos leds do metrô acendendo com a angustia de quem está prestes a descer: um senhor que até dois segundos estava ao seu lado com olhar congelado num horizonte de si pra si, passou o cotovelo perto de seu baço e por pouco ou por ineficiência marcial não lhe tira o ar e lhe coloca de joelhos. Como um mundo de gente, o sexagenário murmura licenças e desculpas até chegar à porta e finalmente descer.
Naquele dia em especial, senhores e pessoas diferentes estavam naquele vagao. O trem lembrou Madalena que tinha que cortar os cabelos próximos ao ombro e enviar a foto para sua mãe. A avó chegava do interior e ficaria em sua casa por pelo menos dois dias. Também precisava pensar no jantar que serviria. Tudo sem a ajuda de um companheiro que, por opção ou auto-afirmação, preferia passar parte do tempo livre conversando com o porteiro chileno que pintava quadros e exaltava as truculências de Pinochet. Ele era esquerda, seu companheiro.
Passaria no mercado tão logo estivesse liberada para o caminho de casa. Olhou, olhou, olhou… nenhum rosto conhecido. Não conteria os olhos se, num tempo de dois ou três minutos, não se identificasse com nenhum semblante. Nenhum? Nenhum? Nenhum? Ninguém?
Alguém! Um garoto a olhou de rabo de olho como se a reconhecesse de algum lugar. Madalena respondeu o olhar continuando sua meditacao com o tempo do led e a saída dos passageiros.

ONDE ESTEJAM, QUAISQUER QUE SEJAM, SÓ ESTAO AÍ COMO PRESENTES.

Lembrou de seus mantras e continuou a acompanhar o caminhar das estações. Cada parada era um retrato cinza-e-preto daquilo que via nos relatos da memória. A memória era uma dama cruel e esnobe que lhe presenteava com impulsos físico-emotivos sobre aquilo que era e que um dia haveria de ser. Jogava em sua cara o que não era e o que poderia acontecer. A memória e Madalena eram amigas desde a infância e só Deus sabia quando os desencontros tomavam conta dos blábláblás dessas duas.

É QUANDO AS COISAS PASSAM QUE AS MEDIMOS.

Seus batimentos se acalmaram quando certificou-se que aquele garoto era, de fato, um transeunte comum que não raro vendia e rendia coisas por vagões. Ela o ajudara com um punhado grande de moedas que lhe incomodavam os bolsos e ele ficara radiantemente agraciado que, provavelmente a tinha em estima elevada no rabo da memória. A cabeça da gente é um cometa… se não for, é só a minha que funciona na raridade de um Haley.

RECORDAR: É TER UMA IMAGEM DO PASSADO. IMPRESSÃO DEIXADA PELOS ACONTECIMENTOS E QUE PERMANECE FIXA NO ESPÍRITO.

Comentou de si pra si que se os corredores do mercadinho estivessem com um trafego complicado, não insistiria mais… mudaria sua rotina e optaria por perder dez ou quinze minutos até chegar ao hipermercado mais próximo de sua casa e conseguir trafegar com tranquilidade e elegância, como num filme europeu que vira tarde da noite. Aquele mercado lotado era um inferno particular e parecia que tudo era posto com muita falta de vontade…

PREVISÃO: ESPERA PRESENTE QUE AS COISAS FUTURAS ESTAO PRESENTES A NÓS COMO PORVIR.

Porvir… era o que ele dizia para a gente repetir… como porvir… como se fosse, de fato, acontecer. Presente como presente… mas ninguém tinha essa vontade toda de te render sorrisos. O natural mesmo era Madalena cobrar um tanto para ver dos outros, um rabo de elegancia providenciada. Mas não tinha nada não… a previsão era de-quê… por que no fim, ela tinha mesmo era a dificuldade de todos nós… aquela dificuldade de como não conseguimos ver coisas futuras que ainda não são…

inspirado por: https://www.clickguarulhos.com.br/palestra-emagreca-por-voce-com-vivian-barbosa/