Como muitas pós-debutantes, guardava em si a angústia. Redução do espaço, do tempo. Carência, inquietude, sofrimento. Dosados à homeopatia de ir e vir em disfarces. Disfarces de beleza, maquiagem, corpo magro da puberdade. Homeopatia de sentir uma pontinha de não se sabe o que, não se sabe onde, não se sabe quando.

Dedicava à família uma aprovação em faculdade pública de Direito. Deixou na prateleira exposta de seu quarto os livros daquele ano. De Alencar à Machado, sintetizava o século XIX. Ao todo, oito títulos. Em um total de oito meses letivos, teria um mês por obra se abdicasse do calendário de provas e do cronograma instituído pelo professor de Literatura. Um livro por mês…

Daqueles gostos da meninice, deixava para quando tinha tempo. Escondeu na prateleira com portas aqueles volumes presenteados no aniversário de quinze anos. A coleção figurava a complexidade da vida adolescente em sete volumes. Todas suas amigas haviam recomendado a saga e ela lera o primeiro volume nas férias. Em cinco dias, terminara as quinhentas páginas muito motivada a continuar mais quinhentas por volume.

Gostava tanto de literaturas. No armário fechado não havia espaço para tantos livros, então, julho a julho inaugurava uma pequena pilha de doações e uma outra pequena pilha de alocações. Era assim: o espaço que ficava vago era ocupado por novos títulos. Estimulava o fluxo do livro lido e era invejada pelo desapego material em tempos de saberes compartilhados.

Os Clássicos, aqueles eram intocáveis, ficavam ali novos. Nem página caía, nem capa gastava. Segredo não revelado. Das vezes que encarou a virgem dos lábios de mel tomou um coice da capa-dura que quase lhe cegou um olho! Por pouco, a pontiaguda quina não lhe furava o glóbulo. Lhe acertou só as sobrancelhas. Daí pegou a mania de ler aquele tipo de livro sentada.

O professor de Literatura, de quem ela gostava somente nas entressafras de um vinho bom a outro, dizia assim:

”A Literatura é como o vinho, é preciso deixá-la fermentar até ficar pronta para tomar.”
Acontece que aqueles livros que ele indicava demoravam um bocado de tempo para fermentar. Quando o gosto batia nos lábios, tudo que identificava era um suco vinagrado. Por que então aquele era um mestre de entressafras? Ela percebeu que quando terminava todo o processo de produção e engarrafe daquelas obras magnânimas, ele não podia simplesmente decretar fim ao semestre letivo. Frente ao demônio do fim do conteúdo, tomava a si mesmo de uma euforia acorrentada. A alternativa: compartilhar os vinhos que tomava naquele momento.

Ficava evidente na cabeça dela a qualidade de um vinho compartilhado. Aquele vinho dos Clássicos que não foram experimentados nem pelo mestre nem pelo aprendiz tinha aspectos estranhos. Porém, quando usava daquelas aulas sem planejamento para falar das safras consumidas, o gosto de tudo aquilo era outro. Passou pela sua cabeça que quem estava ali, preparado para ouvi-lo, se depararia com um leitor com as mesmas homeopatias daquele público-ouvinte. Perceberiam um cadinho de não se sabe o que, não se sabe onde, não se sabe quando daquela alma rica de um sommelier de palavras.

Nas últimas três aulas daquele semestre, saiu com uma vontade não correspondida: como seu professor, aprender a traduzir por si só, daquelas safras, as homeopatias que sentia.

’’Se sobrar tempo… quem sabe numas férias, eu me dedique a isso”