Então vou chamá-la de Sonia.
Tudo bem.
Não por acaso, ela faz aniversário no dia internacional pela eliminação da discriminação racial. Completa 30 anos. Gosta muito de ler notícias aleatórias, assiste novela esporadicamente e dorme quando o assunto embaralha demais em argumentos anuveados. Comprou pra si mesma um vinho doce. Muito doce. Gostava de tomá-lo sozinha, na companhia de amig@s, cada qual com sua garrafa.
Antes dos preparativos do jantar de aniversáiro – já que fazer festa na segunda-feira, mesmo com o Brasil em chamas e a quaresma em sombras, não era uma boa opção – decidiu abrir a página de sua rede social. A rede social é uma coisa engraçada: a diversidade de pessoas não acompanha a pluralidade de ideias, então daria no mesmo ter dois ou três amigos, ou uma massa de mil e quinhentos seguidores.
A medida que baixava o feed de publicações, encontrou ali uma postagem que reforçava o partidarismo e ignorava a pluralidade de leituras possíveis que o material poderia gerar: uma fotografia, por que não, de uma mãe caminhando ao protesto junto de uma babá negra uniformizada que carregava o carrinho de seu filho, seguido da sentença:

E lá vem o mimimi!!
Sonia nunca vira no bairro uma moça uniformizada exercendo trabalhos domésticos ou até mesmo o serviço de baby-sitter em um lar. Uniformes costumeiramente eram adotados em empresas e nas novelas que mostravam a realidade de famílias muito muito muito chiques. Não sabia ler se o uso do uniforme era mais prático para a empregada, ou mais contratual para a patroa.
A fotografia aguçou em Sonia a curiosidade de que agora existe um PEC das empregadas. Falaram tanto sobre isso há um tempo atrás e aquilo foi tão polêmico… sua mãe fora empregada durante boa parte da vida e agora que Sonia trabalhava e conseguia bancar as contas da casa, poupara a mãe para cuidar de sua pequena que nascera dois meses depois da briga conjugal que decidiu a viagem do pai para o Chile. Dos relatos de sua mãe, lembrava:

– Filha, estuda pra não acabar igual tua mãe…
– Você não tem que casar cedo não. Tem que ter independência…
– Tem gente que acha que a gente é de ferro, né?!
– Olha, você acha que é fácil sair daqui pra ir lá do outro lado do mundo aguentar desaforo?
– Se eu tivesse sua idade, eu ia era fazer qualquer outra coisa, menos me ralar igual uma doida.

Aquelas falas eram mais latentes em sua memória, por que a fotografia lhe remetia a certa violência no serviço de uma emprega doméstica ou baby-sitter. Sua mãe teve clientes e experiências muito boas na sua carreira. Só que a situação curiosa é que o papo sobre o trabalho não corria senão com uma aura de tristeza, até mesmo nas histórias felizes. Sempre percebia um peso que embargava a voz de sua mãe de pertencer, talvez, a uma classe de trabalho que o mundo dependia tanto quanto pouco se fodia.
Sonia, no entanto, só trazia a memória esse peso da condição de trabalho da mãe pela foto. Só pela foto. Porque a vida estampava sorrisos e cores tão diversos que não se podia dizer permanentemente triste àquilo que era tão variável. A vida factual, essa era muito boa, desde o cafuné da noitinha, dos presentinhos suados e sempre bem-vindos e dos beliscões no dedão do pé às cinco da manhã para não esquecer o horário da escola. Sua mãe era um porto-seguro que a criara e agora fazia o mesmo com a sua filha, com a mesma delicadeza e firmeza.
A foto, tudo que marcava, era a necessidade de ilustrar ao mundo de lá de fora, que uma sociedade feliz seria aquela que não precisasse de dia pra sexo, de dia pra cor, de PEC pra profissão. Não precisaria era de dia pra mais porra nenhuma. Onde todos vivessem suas próprias experiências factuais e as memorizassem como bem entendessem sem se sobrepor um ao outro. Era o mundo vermelho e justo que estava dando tanto problema na televisão.
Então, os convidados de Sonia chegaram, eles cantaram parabéns, comeram bolo e ela tomou todo o litro de seu vinho doce. Ficou com a cabeça leve, dormiu feliz sem antes presentear a mãe e a filha com uma tempestade de beijos e abraços.

Inspirado no site: http://extra.globo.com/noticias/brasil/foto-de-casal-acompanhado-de-baba-em-manifestacao-divide-opinioes-nas-redes-18866609.html