De quando sua casa agride seu sexo

Então vamos chamá-la de Aline.

Tudo bem.

Aline tem 19 anos e precisa escolher o que quer da vida. Estudou em uma escola pública e comprou um Guia de Estudantes para se inteirar sobre as várias atividades que as pessoas exercem. Ouviu de um e de outro conselhos como:

– Você é a caaaara da medicina!

  • Letras combina muuuuuito com você!-

  • Direito! Minha menina vai ser uma advogada.

  • Enfermageeeeem miga!

  • Vamos pra Bio juntas!

  • Engenharia hoje em dia é emprego garantido.

  • História! Sério, história é o que há!

  • Se não for universidade pública, fodeu!

Então circulava com caneta BIC aquilo que mais ou menos lhe interessava, descobrindo que seria mais um ano sob o hiato da indecisão. Enquanto não saía do armário e revelasse ao mundo o segredo das carreiras indecisas, permitia-se ouvir as divagações de seus pais na sala de estar, numa tarde de domingo. Assistiam, naquele momento, juntos e fraternos, um noticiário sobre questões policiais quaisquer. Aline tinha desenvoltura para concordar e discordar das pessoas, mas seu pai garantiu desde o berço a retórica do respeito como o argumento final para quaisquer estratégias aristotélicas de adesão ou busca pela verdade. Fosse o engenhoso que fosse, estaria fadado a abrir mão de suas convicções para não desagradar uma aura de inconformável desdém sobre sua existência, seguida da paulatina negação de cabeça, de cá pra lá de lá pra cá, daquele conservador de físico de corredor de domingueiras.

Na televisão, o caso da garota universitária, recém-caloura, que no ritual do trote de uma universidade pública qualquer, fora abusada sexualmente. Na televisão também falavam sobre o caso de outra garota que tinha muito medo de sair de sua casa universitária, devido a pixos na parede que revelavam frases que envolviam, ficcionalmente, sua boca e seu sexo no sexo e na boca de estudantes do Direito, das Letras, da Filosofia, da Medicina, da Economia… enfim, a intelectualidade futura das bases sólidas que edificam as instituições de um país sério. Ainda sobre o mesmo tema, já que o programa tinha suas duas horas de duração e meia hora em cada pauta, a garota que teve fotos de seu corpo reveladas, devido a consequência de um sono mal dormido e o cumprimento das obrigações de leituras e fichamentos de disciplinas teóricas, incompatíveis com o peso de suas pálpebras durante uma aula qualquer.

O pai de Aline, prestativo a cada informação não deixava de narrá-las e comentá-las a sua maneira, sob as suas racionalidades:

  • Minha nossa senhora… também, bebeu pra cacete…

  • Olha, é uma complicacao né? Tá vendo Aline… olha o decote que a menina me usa… ta pedindo, né minha filha?!

  • Dormiu na aula e se fudeu…

Cada enunciado acompanhava o riso de zombaria que outrora Vladmir Propp destacou na Literatura Russa como a sentença que determina cada um no seu lugar social: o modelo aceito, o modelo permissivamente escrotizado, ridicularizado e alvo das risadas que lhe retiram toda a complexidade de um sujeito e lhe determinam um único conceito social – a moça que se fudeu. Cada enunciado gerava na cabeça de Aline a introspecção de rever aquilo que vestia. Questionava a si mesma:

  • Qual será o ml necessário de cerveja que posso ingerir para não autorizar nenhum sexo indesejado invadir o meu?

  • Que tipo de alça de blusa eu posso utilizar para manter um estilo autêntico de minha personalidade e não dar a impressão de que se trata, no lugar de apenas uma blusa e peitos, um convite para a exploração sexual alheia?

  • Qual energético devo tomar para não sentir sono em lugar público e ter meu corpo como convite à paparazzis infiltrados?

Preferiu, assim, voltar a circular bolinhas no Guia de Estudantes e torcer para não vacilar com nenhuma dessas regras pré-estabelecidas que ninguém se lembra de nos informar.

  • Espero que esteja fazendo tudo certinho…