De quando um tufo de confete carnavalesco te invade garganta adentro

Então vou chamá-la de Laís.

Tudo bem.

Laís não era um folião. No lugar do carnaval, queria mesmo era aproveitar uma festa punk. Não queria tomar pra si a alcunha de mainstream. Não queria tomar pra si os adjetivos morais que colocavam em descrédito a festa pagã. Não queria tomar pra si o desejo de que tudo aquilo acabasse. Não… só não se importava com a festa e queria mesmo era ficar na dela.

Deixa a cidade lá e eu aqui.

Saía todos os dias cedo. Naquele, estava ainda um pouco atordoada pelo tilintar agudo do seu relógio que a sacudira vinte minutos antes do planejado. Responsável pelas ligações e a agenda de um consultório de odontologia no outro lado da cidade, encontrou problemas em enfrentar um trânsito mais agressivo do que de costume como todo cidadão metropolitano de espírito moderado.

Que saco! Que sono! Que saco!

Seu ônibus, o 570C – Jardim Aclimação, tinha um percurso de três ou quatro horas dos pontos inicial ao final. Descia antes do fim da linha, mas percorria rotineiramente uma trajetória de quarenta minutos em pé, uma hora sentada. Porém, em uma sexta-feira pré-carnaval, as coisas seriam um pouco diferentes.

Pegar o mesmo ônibus é engraçado: você acaba se acostumando com algumas faces e alguns comportamentos. Ela sempre encontrava, por exemplo, um casal de estudantes que ficavam em pé no fundo do ônibus, olhando um ponto fixo no caminho, lutando contra o sono. Também havia um grupo de senhores e senhoras que ficavam na frente, de rostos sortidos, mas comportamentos padronizados. E havia aquele rapaz de meia idade que levava uma bolsa de mão pequena que, possivelmente, continha um almoço e um ou outro produto cosmético.

Na lassidão profunda de seus sentimentos, não percebeu que entrara um grupo de foliões no tranquilo e apertado 570C. Um grupo de quatro ou cinco garotos, da geração dos 20, vestiam perucas multicoloridas, óculos gigantes, gravata caricata. Os corpos, cobertos por purpurina dourada e serpentinas de papel. Dois ou três com spray de espuma. Dois ou três com um saco de confetes.

Laís não escutou muito a prosa dos jovens, então traduziremos assim:

  • AAAAEEEEEAAAAOOOOOEEEEEEE CARNAVAL! AAAAAEEEEEAAAAAOOOOOEEEEEE CARNAVAL!

Simultaneamente, espirravam sprays de espuma na orelha do motorista, na boca do cobrador, nos olhos dos senhores e das senhoras. Nas paredes do ônibus, nas janelas, só se via confetes e espuma, como se o carro pouco a pouco se tornasse alegoria. O casal de adolescentes tentava se esconder das intervenções forçadas dos foliões histéricos, mas logo suas cabeças também se transformaram numa bolota branca disforma cheia de papeizinhos cor-de-rosa. A bolsa de mão pequena foi parar quase no pé do cobrador e o rapaz tentava em vão recuperar seu almoço, se fosse isso, afinal, que ele carregasse naquela bagagem.

Insatisfeita, Laís abriu a boca para um questionamento. Como se colocássemos a cena em slowmotion, a boca abrindo, uma mão chegando, a boca abrindo, uma mão chegando, a boca abrindo, uma mão chegando… antes mesmo que grunhisse qualquer coisa, talvez bons gramas de confete invadiram boca, garganta, olhos, ouvidos e todos os orifícios de sua cabeça.
Daí, não enxergou mais nada e só se preocupou em catarrar aqueles pequeninos papeizinhos e gracejar baixinho um:

  • Folião filho da puta.