De quando Vanessa ansiava por um mundo melhor e tinha um grande horror de mudanças

Então vou chamá-la de Vanessa.

Tudo bem.

Eu diria que Vanessa sempre foi um produto bem feito da sociedade moderna. Como devemos nos distanciar um pouco de nossas amarras contemporâneas, gosto de considerar moderno aquilo que se dá timidamente desde o século XV com o renascimento e vai, de pouco em pouco, tomando essa forma distópica e tresloucada do sujeito complexo de hoje em dia. Daquele indivíduo tão preso às convenções e limitações institucionais, quanto livre o suficiente para pronunciar e defender com argumentos profundos a máxima:

Sou ateu, graças a Deus!

Sentada na cadeira confortável de sua cozinha, de frente para uma tela de notebook que exibia um texto grande e complexo nomeado Artigo Científico, encontrava-se de costas viradas para a pia e aquela civilização inteira de panelas, pratos, talheres e restos de comida de um almoço movimentado. Filhos, dois gêmeos, marido, um administrador bem empregado. Seus dedos digitavam, enquanto seus olhos corrigiam as incoerências apontadas pelo parecerista da revista. Não tinha música naquele ambiente. Somente o lembrete de um metrônomo tempo que cadenciava, por segundos, o atraso de duas vidas: a de uma aspirante a pesquisadora, a de uma veterana dona de casa. Em um daqueles parágrafos notou:

Devemos mudar significativamente nossa forma de leitura do mundo e o trabalho começa na educação básica.

Grifou de vermelho aquelas palavras. Uma sentença sem citação. Tranquilo para quem já estava no meio do doutorado, mas o fluxo da leitura levou o parecerista a marcar algo do tipo um estranho deslocamento de vozes enunciativas. Que coisa estranha! Para aquele leitor experiente, a voz de Vanessa era uma, as vozes citadas outra e aquela sentença comportava-se como um terceiro intruso que deslocava uma atenção não convidada no ritmo cênico de seu texto. Distraída com a voz que ecoava aquilo que preferiu chamar de citação parasita, ouviu de longe e pouco a pouco se aproximando, o som-alarme de seu celular.

Saiu de onde estava, levantou da cadeira e foi até a sala atendê-lo. O nome que estampava no identificador de chamada de seu smartphone não precisava ser decodificado pelo seu cérebro, senão pela osmose cotidiana, associativa de um horário e das conjunturas:

– Oi…

– Oi Van… tudo bem?

– Tudo.

– O que está fazendo?

– Estava revisando um artigo aqui…

– Entendi… então, vou chegar um pouco mais tarde hoje. Você não se importa de deixar o prato feito no microondas? Eu estou só o pó…

– É… eu vou ver aqui… por que preciso terminar isso que estou…

– Relaxa… pode ser mais tarde. Eu chego tarde.

– Tudo bem… tudo bem.

Coitado… vai chegar tarde do trabalho.

A intervenção repentina levou Vanessa a dar as costas para o notebook e vestir as luvas para a louça. Ela tinha uma alergia terrível a detergentes, quer fossem neutros ou não. O incômodo maior estava na falta de criatividade para um cardápio diferenciado. Quase sempre, percebia no semblante dos seus meninos, o que incluía seu marido, certa aversão tímida e respeitosamente contida do arroz, feijão e steak de frango. Um dia o mais atrevido comentou:

– Comi na escola um strogonoff.

Pareceu a Vanessa um convite indireto para um novo aprendizado. Anotou mentalmente, como opção para um dia:

Tentar fazer um strogonoff.

Retirou da geladeira o frango descongelado. Estava em peça. Esqueceram de pedir, no momento da compra, que lhe cortasse em cubos. Como odiava aquilo: o frango era pegajoso, sentia que o cheiro impregnava na mão de tal forma que, mesmo lavando com detergente e sabonete, dormiria cheirando aquele ranço estranho. Também não usava alho triturado. Seus homens preferiam sentir o gosto do alho fresco, àquele triturado e cheio de conservantes. Então, os dedos no fim do dia exalavam um aroma de panela fria e destampada.

Preparou o molho, colocou tudo no fogo, cronometrou um tempo ideal em seu celular e voltou as costas para a cozinha. Sentou diante de seu notebook novamente. Olhou o artigo, especificamente para Devemos mudar significativamente nossa forma de leitura do mundo e o trabalho começa na educação básica. Não… não iria lembrar de onde tirara aquilo. Não era dela, não era de ninguém. Preferiu apagar a sentença para não perder mais tempo procurando seu referente.

Após duas horas tudo estava pronto: jantar com as panelas tampadas, pratos postos a mesa, notebook guardado. Decidiu, após mais uma tarde cansativa, deitar um pouco no sofá da sala e olhar para o teto. Só olhar para o teto. Pegou o celular para despertar pouco antes de seus garotinhos chegarem e tal não foi sua surpresa estampada em seu whatsapp:

Amor, não esquece de deixar a carne fora do congelador para amanhã. Te amo muito!