De um anel, de um tempo, de um presente

Então vou chamá-la de Laila.

Tudo bem.

Em frente a uma penteadeira quase vitoriana da casa de sua mãe, experimentava um anel desconfortável. Aquela pedra roxa, no corpo dourado do anel, serviria logo logo para uma joia exposta em colar. O anel, lembrança. Acaso mantivesse o mesmo peso, as mãos inchariam mais cedo ou mais tarde. Dificilmente, os dedos não mudam ao passar dos tempos.

Dedicava a vida em promissores aconselhamentos. Ganhara pouco dinheiro. Ganhava sorrisos quase-que-sempre. Dedicava horas conversando com uma prancheta de madeira e um papel sulfite branco. Escutava centenas de conversas em segundos, marcados no relógio-da-atenção. Preferia dizer ‘’autoconhecimento é o melhor remédio para a consciência.’’

Do passado, projetava aquilo que gostaria para o futuro e de tudo mais: só o tempo presente. Uma senhora lhe indagou que nunca ia conhecer aquilo que já não conhecia. ‘’Abrir-se ao novo’’. Grifou três ou quatro vezes a palavra novo. Anunciara o bom conselho em mantras de tantas certezas que ficou se perguntando se aquela máxima não era de fato operacionalizável.

Do futuro, faria trinta e cinco anos naquele dia. ‘’Então… já fiz? Farei? Faço?’’ Não importava. Sentia mesmo era que a respiração cansava um pouco mais que na adolescência e os joelhos doíam se ficava muito tempo em pé. Não ficava num abre e fecha de boca que nem boba quando mergulhava nas aulas de natação, mas já não cruzava a piscina ponta a ponta numa nadada.

Algumas coisas, contudo, melhorara. Tinha facilidade de memorizar ruas e seus nomes… nomear alguns profissionais do corpo: massagistas, personais, endócrinos… tomava café com mais frequência e enchia a cara com mais requinte. O sexo quantitativo travestira-se de compromissos ritualizados consigo mesma e um-algum-parceiro. Amadurecera a vantagem de estar sozinha, na companhia de tantas e tantas variáveis…

Dos cigarros ela decidira parar mesmo… a família nunca que imaginaria um pulmão com tantas manchas. O período de catarse acadêmica lhe ensinara, de forma catedrática, receitas de bons drinks e alguns baseados. O que era a memória… ela não conseguia validar real, aquelas reuniões de tantas horas, sobre Jung e Lacan. Ela consentiu que se contasse a alguém alguma coisa, mentia no recheio dos eventos.

História contada é igual bolo de chocolate com Nescau. Prometeu um monte de coisas e vestiu-se como nos livros do Harry Potter. A expectativa mesmo do final substitui-se pela euforia da saudade. A penteadeira quase vitoriana apalpou uma das mãos em seu ombro: aquela garota silenciosa, que sentava no canto esquerdo da sala e não abria a boca por nada, já está no fim do doutorado e oferecerá um minicurso interessante sobre o que poderia lhe sugerir um caminho para uma especialização na parede do seu escritório.

Já que era seu aniversário, agarrou um punhado de memória e decretou silêncio para todos os fluxogramas que deixam ratos-de-cobaia como bobos. Assoprar e pedir… assoprar e pedir… um anel novo… de pedra rubi… um companheiro, mais tempo, chegar cedo e dormir… menos regras, mais ação… menos vai-e-vêm e mais emoção… uma janela aberta, mas sem tempo ruim por aí. Um carro novo… um óculos novo… um jejum, sem a cabeça explodir… emagrecer… enriquecer… vaidades, aquelas vaidades que falam por aí…

Notou que o decote alertava seios não tão duros. Fragilizava-se com roteiros que não engolia. Pontuava os textos que escrevia e começara, no ano passado, a fazer Ioga para acalmar uns bichos que não existiam. Uns dias que são, uns dias que foram… agora era aguardar pro que vai ser. Laila parecia que aguardava demais.

O dedo engoliu o anel… ‘’Agora eu quero ver sair!”

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