De um caminho em (re)progresso

Então, vamos chamá-la de Liz.
Tudo bem.
Liz tem 24 anos, trabalha num escritório de advocacia e matriculou-se há dois semestres no curso de Ciências Contábeis. Já trabalhava na área, então a escolha pelo curso foi mais levada pela maré do acaso, do que uma tradição repleta de devaneios oníricos desde sua formação básica. O que não queria dizer que ela frequentava as aulas pela osmose do descompromisso: olhava fixamente os gestos de cada um daqueles que se auto-intitulavam mestres de alguma especialidade. Tomava nota. Perguntava. Aplicava o que aprendia. Toda a vida, optou pelo presente budista ao jogo passado-futuro cristão.
O que menos preocupava Liz naquela semana de fim de janeiro não era seu curso superior. Não. Ela morava numa residência na rua Iracema Ubirajara Celeste. Vila Progresso. O bairro. Progresso sempre ecoou em sua cabeça como uma palavra engraçada: recuperava a concepção filosófica de Nietzsche – sem nem pensar em sua barba – de que tratava de um movimento cíclico e que enquanto indivíduos, deveríamos estar sempre de olhos bem abertos nas suas idas e vindas. Em outras palavras, se Liz fosse tomada por uma epifania que lhe desvelasse o inconsciente num repente, não esqueceria jamais o prefixo re- em parênteses antes de grafar progresso em quaisquer situações.
A luz elétrica da rua, que acompanhava os moradores há decadas, decidira despedir-se com o ano de 2015 sem data para voltar. Liz tinha consciência de que aquele fora algum tipo de embrolho mal explicado da fornecedora de energias, mas não deixava de sentir na pele as ironias da Vila Progresso: de alguma maneira, os moradores paravam para discutir melhorias da condição humana inerentes, talvez, ao século passado. Percebia frases como:
”Sem luz na rua, fica complicado chegar tarde.’’
Não deixava de notar, também, que o teocentrismo cristão dominava a boca de muitas pessoas, quando se evocava o pecado original como sinônimo daquela condição de regresso da relativamente movimentada rua celestial:
”Sem luz na rua, fica complicado chegar tarde.’’
Numa expectativa de ‘demônios estão a solta’, a vizinhança parecia aguardar tudo quanto é tipo de gente ruim a surpreender os transeuntes que faziam parte do grupo da ‘gente de bem’ num assalto, numa agressão gratuita ou num estupro. Provincial, Liz percebia também que o homem sem energia da sua rua passava a se cobrar resguardo em casa quando o sol se punha, com a esperança de não compactuar com o possível Apocalipse urbano de lá de fora.
‘’Sem luz na rua, fica complicado chegar tarde.”
Sem muitas opções de chegar em casa antes das 20:45, o que Liz fazia era andar uns cinco ou sete minutos de rua no escuro até chegar em casa e se deparar com sua mãe no portão. Apertava o passo e só beijava as bochechas geladas de sua mãe-vigilante-noturno quando esta trancava o portão e já estivesse dentro de casa, em solo seguro. Daí então, começavam o que num curso de filosofia básica se evidenciaria a crise da consciência europeia do final do século XVII, de quando as instituições já não tem tantas semelhanças com a divindade:
”Só Deus pra resolver o problema dessa rua.’’
‘’Você ligou lá? Será que já ligaram?’’
”Outra vez? A gente pede, implora, é educado e até perde a classe e o que recebe em troca é sempre a mesma coisa: tem que esperar, tem que esperar, tem que esperar.’’
”Que sacanagem. Falta de consideração!’’
”É, minha filha… o que vai se fazer? Tem que esperar. Disseram até dia 05 de fevereiro. Vou até ascender vela e pedir pra Deus’’
Liz, como os outros, espera ali, até o início de fevereiro para, quem sabe, entrar de cabeça no século das luzes.

Crônica inspira em: https://www.clickguarulhos.com.br/rua-na-vila-progresso-esta-no-breu/