Vou chamá-la de Bia.
Tudo bem.

Bia deitou na cama e olhou o teto do seu quarto. Antes disso, lera a página de um livro e trechos fragmentados de lides jornalísticos. Escutara, de rabo de ouvido, palavras aleatórias de um folhetim televisivo. Cheirara os temperos de um jantar comemorativo. Seu apartamento só servia às duas, bem servido.

Por que devo proclamar quem sou e o que quero?

Um bigode, uma cabeça, a pluralidade de um mundo complexo. Gostava tanto de Filosofia que, se pudesse, dedicaria sua vida nessa empreitada do autoconhecimento. Melhor que passar horas sentada em um divã era mesmo ler um livro de Filosofia.

Olhou o relógio brilhante da tela de seu celular. O tempo era mesmo uma coisa engraçada. Ano a ano imprimia uma atualização curricular para a empresa que trabalhava. Matriculava-se em cursos sem pegar uma fila. Tudo pela internet. Recebia o material pelo correio eletrônico e tinha o hall de atividades necessárias para aquela certificacao. Recebia o dito certificado de conclusão e estava, enfim, diplomada mais uma vez.

A leitura é um processo tão lento. Sintonia do estômago com os condimentos estrangeiros.

O cheiro dos temperos fritando ao azeite e fogo quente lhe abriam rombos semânticos no estômago. Hipnose… como em um desenho do pica-pau. A cozinha ficava a sete passadas lentas de seu quarto.

Cozinhar só faz sentido, quando despertamos o desespero, pelo cheiro, nos homens apressados.

Reparou que o teto do seu quarto tinha orelhas interessantes para confissões mentais. Dos papeis certificatórios, das mudanças existenciais e das vaidades adquiridas, correlacionava-se mundos e galáxias distantes. O maniqueísmo ajudava muito Bia a justificar suas escolhas para os outros, mas aquelas orelhas brancas emudeciam um eco de crueldade ímpar.

Quem admira bons pratos, deve manter-se afastado, respeitar o tempo de preparo, silenciar-se a sua apresentação e tomá-lo pra si lentamente, garfo a garfo.

Pelo som que fazia na cozinha, ela já mergulhava no tempero aquilo que, surpresa, saciaria as ansiedades pré-jantar. A arte, um requinte sutil e delicado, aplicado ao preparo das coisas que servem, no fim, para nos seduzir e encantar. Precipitação, pressa… tempo inimigo da gente… necessidade de logo acabar… não qualificam um bom jantar. Não.

Também não se aprende com os outros a técnica de comer bem. Lenta e profundamente, com prudência e precaução. Admirando o prato-estético e a quem lhe serve com tantas intenções. Comer… jogo que seduz. O banheiro saía para a cozinha sem ter contato com o quarto e ela levou todos seus temperos para o banho. Não permitiu uma troca simples de carinho antes de colocar tudo em seu lugar.

Portas abertas, mesa posta, jantar anunciado. Dedos e olhos delicados. Paciência e respeito a cada passo a passo ritualizado. Do convite ao corpo nu, gasta-se nada menos que quatro, cinco horas. A noite termina sem que proclame verbalmente:

Quem eu sou? O que quero?

Inspirado por: https://www.clickguarulhos.com.br/o-corpo-fala-como-interpretar-sinais-que-podem-revelar-mais-que-um-dialogo/