Por Cris Marques
Fotos Arquivo pessoal, banco de
imagens e Rafael Almeida

Apesar de não ser uma prática comum entre os brasileiros, se comparado a outros países, a doação de sangue já é um procedimento conhecido por aqui. Mas o que muitos não sabem é que, no momento da coleta, é possível se cadastrar para outra atitude que pode salvar vidas: a doação de medula óssea. Carlei Heckert Godinho, médica responsável pelo banco de sangue no Hospital Geral de Guarulhos, explica que esse tipo de medula, também conhecida como tutano, é um líquido, com consistência gelatinosa, existente dentro dos ossos e sua função é produzir as hemácias (glóbulos vermelhos), os leucócitos (glóbulos brancos) e as plaquetas. De acordo com ela, existem doenças, principalmente as hematológicas, em que essa “fábrica do sangue” é comprometida, como uma leucemia aguda ou um linfoma, o que prejudica o funcionamento do organismo do enfermo. E, entre os tratamentos possíveis, pode ser indicada a substituição dessa substância, e é aí que surge a esperança do transplante.

medula2“As chances de encontrar um doador compatível entre irmãos é de 30%, então quando se fala na doação a busca começa por eles, já que existe a tipagem genética do pai e da mãe. Caso o paciente não tenha irmãos ou eles não sejam compatíveis, então passamos para o Redome (Registro Nacional de Doadores Voluntários de Medula Óssea), onde a chance é bem menor, menos de 5%.

Praticamente uma compatibilidade para cada 100 mil buscas”. Com uma probabilidade tão pequena, Carlei reforça a necessidade e a importância do Brasil ter um número expressivo de cadastros, mas também afirma que o País avançou muito nessa questão. “No início da década passada, o número era de 12 mil cadastrados e hoje já passamos de três milhões, ficando atrás apenas da Alemanha, com cinco milhões, e dos Estados Unidos, com sete. Apesar disso, temos uma população muito mais miscigenada, o que, do ponto de vista genético, resulta em mais variações e menos compatibilidades”.

Cadastramento voluntário

Para ser um doador de medula óssea, é preciso ter entre 18 e 55 anos, estar saudável e comparecer a um hemocentro que faça o processo, com um documento de identificação com foto. Nesse momento, já é coletada uma amostra de 10 ml de sangue, que, posteriormente, passará por uma análise genética, por meio do exame de HLA. Então essa informação vai para um banco de dados e fica disponível para os médicos. “Esse cadastro é permanente e a pessoa pode ser convidada para a doação até completar 60 anos. Por isso a necessidade de preencher diversos números de telefone e mantê-lo sempre atualizado. A pessoa pode ter se voluntariado hoje, mas só ser chamada daqui a vinte, trinta anos”.

Processo de doação

Quando o médico detecta que seu paciente precisa de um transplante, ele acessa o Redome e busca por um HLA que seja compatível ao do enfermo. “Quanto maior essa compatibilidade, melhor; o ideal é ser 100%”, afirma a médica. A partir do momento em que é encontrado um possível doador, ele é contatado e convidado a fazer novos exames, agora mais específicos do que a primeira coleta, o que pode comprovar ou acabar descartando a possibilidade de doação. “Em alguns casos, ele vai até o centro de referência mais próximo e faz ali a coleta. Assim, a medula é congelada e enviada até o receptor. Inclusive existe até a possibilidade de envio para pessoas fora do País e vice-versa. Já em outros casos, é mais fácil o doador se deslocar”. Lembrando que transplantes não aparentados, dentro do País, têm total cobertura pelo SUS.

Segundo a profissional, o procedimento é bastante simples. O doador é submetido a uma anestesia que pode ser geral ou peridural, o que será decidido pela equipe médica. Então, a medula é coletada por meio de uma punção no osso do quadril, o sacro, na região das costas. “Muita gente tem medo por não saber como é o processo. Não tem nada a ver com a coluna, pois não é doação de medula espinhal. O doador acorda da anestesia e vai sentir um leve desconforto na região da punção, que pode ficar levemente dolorida de três dias a uma semana. A internação é de apenas 24 horas e a medula óssea é totalmente reestabelecida em apenas 15 dias. E, apesar das pessoas acharem que o receptor recebe a doação em um processo cirúrgico, na verdade é por meio de uma transfusão”, esclarece.

Atitude recompensadora

Fabiana (1)Fabiana Freitas, coordenadora de vendas da Level Up Games, é doadora voluntária de medula óssea e foi convidada para realizar o procedimento em 2014. “Meu tipo sanguíneo é O-, então acho que, como é um tipo raro, tenho a obrigação de fazer minha parte. Após receber a ligação, bateu certa ansiedade, principalmente porque todas as pessoas que deveriam me apoiar e ficar orgulhosas da decisão ficaram mais receosas do que eu. […] No dia, fui pro hospital Santa Paula, em São Paulo, e tiraram alguns tubinhos de sangue para fazer exames. A anestesia foi esquisita e doeu um pouco, mas o anestesista já havia me falado da possibilidade. A sensação de não sentir nada da cintura pra baixo é um pouco desesperadora; já a coleta foi indolor e muito rápida e, graças ao sedativo, eu dei uma apagada e, quando me dei conta, estava na recuperação tentando mexer os dedos dos pés. Todo mundo me tratou como se a atitude fosse algo fora do normal, alguns até me perguntaram se era promessa. Hoje em dia, acho difícil as pessoas acreditarem que foi só porque era o mínimo que eu poderia fazer. É um ato que exige tão pouco do doador e é recompensador pensar em salvar uma vida”.

Quer se candidatar?

Carlei afirma que, apesar de não ser um pré-requisito, ser doador de sangue é o primeiro passo para a conscientização da importância da ajuda ao próximo. “Como a doação de sangue é um processo simples, o ato é significativo para a pessoa avaliar se, em um segundo momento, quando for convidada para doar a medula óssea, estará realmente preparada”.

Confira os endereços de cadastramento mais próximos:

  • Hospital Geral de Guarulhos
  • Alameda dos Lírios, 200, Parque Cecap. 3466-1446.
  • De segunda a sexta, das 7h30 às 15h30.
  • Hemocentro da Santa Casa de Misericórdia de São Paulo
  • Rua Marquês de Itu, 579, Vila Buarque. 2176-7258.
  • De segunda a sexta, das 7h às 18h, e sábados, das 7h às 15h.

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