Domicio Proença Filho lança livro sobre a trajetória do português brasileiro

No princípio, foi o gesto, a música, a dança, diz Domicio Proença Filho, citando a carta de Pero Vaz de Caminha. Depois, continua ele, veio a palavra e a mescla. “De línguas de português, de índio, de negro d’África e, em menor escala, de outras gentes de etnias outras”, escreve, convidando o leitor a embarcar numa viagem para conhecer as origens, os processos e a história da língua falada no Brasil no livro “Muitas línguas, uma língua: a trajetória do português brasileiro”.

Segundo o autor, professor de literatura e imortal da Academia Brasileira de Letras, o livro fundamenta-se em quatro pressupostos básicos: “conhecer é interpretar; todo texto é diálogo; a natureza e a especificidade da língua que falamos estão estreitamente vinculadas a fatores histórico-sociais inter-relacionados e integrados; a língua acompanha a dinâmica da cultura em que se insere: encontra-se em permanente mudança.”

Com 672 páginas e 15 anos de pesquisa e escrita, o livro, Domicio adverte, é um esboço de uma matéria complexa e que já foi muito analisada a partir da década de 1970, com o desenvolvimento da linguística. Com volumosa bibliografia, a obra é recheada de textos da literatura nacional, de romances a poesia e cânticos africanos, entre outros; de documentos oficiais, como a carta de Pero Vaz de Caminha; notícias de jornais, entre outros registros escritos no país. Foi feito para estudantes de Letras, mas, sobretudo para todos que se interessam por literatura, história e por uma boa prosa.

A obra chega às livrarias no fim de novembro, pela editora José Olympio. Compre o livro aqui.

ORELHA

Linguista, neste Muitas línguas, uma língua, Domicio Proença Filho não se isola na linguística como o monge no seu claustro. Erudito, ele não se contenta com a erudição das bibliotecas, mas embarca, entusiástico, nesta grande aventura plurissecular, e pluri-idiomática, qual seja a de reconstituir o que ele mesmo chama “a fascinante história da língua portuguesa no Brasil”. Para tanto, recorre incessantemente às ciências humanas, o que lhe permite contemplar seu tema na perspectiva do que M. Mauss chamou outrora de “fenômeno social total”.

Este livro de Domicio Proença Filho é tanto mais rico nas suas perspectivas e nas suas abordagens quanto seu percurso intelectual não se limita à teoria, mas se baseia também na experiência eminentemente prática do autor no ensino da língua e até na gestão de seus mecanismos administrativos. Nesta obra, a construção do Brasil como nação e a construção do português do Brasil marcham de mãos dadas desde o dia remoto de Porto Seguro até este começo inquietante de milênio, com seus novos meios de comunicação de massa e com seus estrangeirismos avassaladores que já revolucionam para o bem e para o mal o uso do idioma.

É revelador da natureza global da análise encetada por Domicio Proença Filho o fato de que Muitas línguas, uma língua não se contenta com aqueles aspectos convencionalmente tratados nas obras brasileiras de linguística, mas examina de perto as relações da língua com a literatura, com o teatro e a música popular, com o papel do rádio e da televisão na difusão e, me atrevo a dizer, na deformação do idioma. A riqueza dos temas examinados não é a única surpresa agradável destas páginas, que vão ilustradas por uma quantidade de textos da mais diversa origem.

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Evaldo Cabral de Mello

SOBRE O AUTOR

Romancista, poeta, ensaísta, crítico literário, antologista, professor universitário, filólogo, pesquisador, conferencista e promotor cultural, Domicio Proença Filho marca sua presença nas áreas da criação artística que se relacionem com a escrita e com a língua portuguesa. Citado, comentado e anotado por todo caderno e revista literária, sua inquietação o leva a percorrer com rara consistência os campos afins à atividade de escritor, sempre alcançando êxito em seus projetos literários. Por trás de todas essas máscaras, encontra-se apenas uma face: a de alguém que vive a intimidade e a estranheza da própria língua, e que quer, instigado pelos movimentos de abertura e fechamento, fazer do seu ofício a habitação e o exercício dessa íntima estranheza. E em seus trabalhos mais especificamente ligados à escrita, isto é, como ensaísta, crítico, ficcionista e poeta, seu tema primordial — ou sua personagem principal — é a linguagem em si mesma, em suas articulações enunciativas, e em seus desdobramentos históricos e, sobretudo, poéticos.

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