Texto e fotos por Jônatas Ferreira

A dura realidade das aldeias
indígenas do Pico do Jaraguá

Cercados por três grandes rodovias de São Paulo – Anhanguera, Rodoanel e Bandeirantes –, índios convivem com as invenções e domínio do homem branco, que cada vez mais suprimem sua cultura e os confinam num espaço que pouco preserva suas origens.

Na área denominada como Terra Indígena Jaraguá, estão as aldeias Ytu, Pyau, Itawera, Itakupe e Itandy (em tradução literal, respectivamente, Aldeias da Cachoeira, Nova, da Pedra Reluzente, Atrás da Pedra e da Pedra Amarela). Dessas, apenas a primeira vive em território demarcado legalmente, sendo considerada a menor área indígena do Brasil, com 1,7 hectares regularizados.

As aldeias indígenas vivem um triste acaso ao observar a rodovia Bandeirante, construída às margens da TI Jaraguá, em 1978. Afinal, responsável por encurtar suas terras e privá-los cada vez mais do seu modo de vida, a via também carrega o nome dos algozes de seus antepassados.

Localizados na rua Comendador José de Matos, altura do 386, próximo ao Pico do Jaraguá, zona Oeste de São Paulo, os Guarani (etinia) Mbyá (dialeto) lutam para manterem as raízes, encabeçada pelo modo de vida tradicional do povo, ou nhandereko, como expressado em uma das línguas faladas por essas terras antes de ser alcunhada como Brasil pelos colonos.

Todo o complexo de aldeias da região tem origem em meados de 1950, numa época em que a mata era abundante e a terra limpa. Segundo dados da Fundação Nacional do Índio (Funai), antes das grandes construções, a região “formava um contínuo de floresta com a região da Serra da Cantareira e do Parque Anhanguera, entrecortada de pequenos estabelecimentos rurais”. Com o desenvolvimento urbano, o cenário mudou – e muito.
Urbanizados, hoje os índios vivem fora do contexto que rege suas práticas há séculos. Eles tentam sobreviver sem caça, pesca e plantação. Até mesmo um rio, que outrora serviu para alimento e brincadeira dos curumins, como são chamadas as crianças, hoje recebe os dejetos do homem branco.

Foto cedida pela Agência Brasil

Todo o TI Jaraguá tem cerca de 800 pessoas, sendo que 300 são crianças. Segundo a Funai, o espaço é configurado como confinamento territorial não condizente com o padrão de ocupação territorial Guarani. Por ainda enfrentar o processo de regularização fundiária, a Pyau e as outras duas aldeias padecem dores que sua irmã, a “aldeia de baixo”, já não sofre.

A portaria que reconhecia 523 hectares de terra indígena foi anulada no Diário Oficial da União no dia 21 de agosto, agravando ainda mais a triste situação do povo indígena. Essa foi a primeira vez que o Governo Federal revoga uma demarcação. A alegação foi de que a área “foi demarcada sem a participação do Estado de São Paulo na definição conjunta das formas de uso da área”. Com isso, a comunidade já empobrecida terá de viver em somente três hectares, o que agrava ainda mais os problemas.

Brasil, de amor eterno seja símbolo

A Reportagem da revista Weekend embarcou na caravana do projeto Missão Vida Nova, grupo que desenvolve trabalhos sociais em asilos, orfanatos, aldeias entre outros grupos carentes, para conhecer um pouco mais o dia a dia dos indígenas. A visita à Pyau, apelidada de “a aldeia de cima” ocorreu em 12 de agosto, três dias depois de se comemorar o Dia Internacional dos Povos Indígenas.

Presenciamos pessoas que vivem em condições sub-humanas. As casas são feitas de chapas de madeiras e o esgoto passa por debaixo das construções. Segundo relatou-nos Balbina dos Santos, de 40 anos, quando chove, água, lama e esgoto com as fezes de centenas de animais que lá existem invadem as casas.

Como não podem mais produzir o próprio alimento, os índios estão fadados a depender de doação. O pouco dinheiro que circula na aldeia é oriundo de programas do governo, como Bolsa Família e, sobretudo, da venda do artesanato. A casa de reza, onde acontecem os rituais da cultura, é a última construção de pau a pique e uma das poucas que simbolizam sua cultura. Além disso, são cerca de 20 banheiros para uso geral.

A Reportagem conversou com alguns nativos. Quase todos falam do mesmo problema: a falta de espaço, fator determinante para quem precisa plantar para sobreviver. “A gente não passa fome porque divide um com o outro o que recebe de doação”, conta Balbina.
O que a Prefeitura, Estado e União fazem são esforços insuficientes. Em 2016, o Ministério Público Federal (MPF) entrou com ação civil pública pedindo que a Funai e as três esferas de governo implementassem políticas públicas de combate ao alcoolismo e uso de drogas ilícitas nas aldeias. Segundo o MPF, o consumo abusivo de álcool e entorpecentes são excessivos, sendo fomentadores da violência sexual contra crianças, adolescentes e mulheres.

Além disso, os índios convivem com o constante abandono de animais. Segundo levantamento feito por protetores de animais que atuam na aldeia, divulgados pela Prefeitura Regional de Pirituba, há cerca de 580 cães e 190 gatos lá. “Isso acontece porque os índios têm a generosidade de receber os animais. Aqui se tornou ponto de abandono. E ao invés de tirarem os cachorros, trazem ração, o que acaba piorando a situação. É um confinamento dentro de outro confinamento. Teve um caso de um homem que foi atacado por uns 15 cachorros. Ele ficou três dias internado”, conta a voluntária Noemi Wajntal, de 49 anos, que há dois tenta ajudar a aldeia com trabalhos voluntários e pede para que a sociedade tome conhecimento dessa realidade.

A Prefeitura promoveu em março deste ano mutirão de castração de cerca de 100 cães e gatos. Como melhorias, o órgão, juntamente com o Governo Estadual, pretende instalar câmeras de monitoramento 24 horas e rondas periódicas por parte da Polícia Militar/Ambiental e Guarda Civil Municipal.

À Weekend a Regional disse que, em encontro com as lideranças das aldeias e dos setores públicos, que ocorreu no mês de agosto, foi reivindicado lombo-faixa, para evitar atropelamentos, placa marrom para indicar aos paulistanos onde fica a aldeia, além do fechamento da avenida aos domingos para uma feira de artesanato e palestras para conscientizar os jovens sobre as drogas e álcool. Coube à Regional a limpeza de boca de lobo, e colocar mais caçambas na calçada para a coleta de lixo, pois as vielas das aldeias são estreitas e o caminhão de coleta não passa.

A Prefeitura mantém uma Unidade Básica de Saúde (que fica na aldeia de Ytu). Os índios só são encaminhados para lá quando o Pajé percebe que há necessidades de intervenções, as quais os remédios naturais não conseguem solucionar. Entretanto, a UBS faz apenas procedimentos básicos – como qualquer outra. Casos mais graves são encaminhados para um hospital da região.

Na aldeia Pyau, tem o Ceci – Centro de Educação e Cultura Indígena, uma espécie de creche. Para dar continuidade aos estudos, adolescentes e jovens precisam ir para a cidade. Vale lembrar que o português é caso raro na aldeia, falado apenas por quem frequentou a escola do homem branco.

Os preconceitos duram 500 anos

Todos os índios entrevistados pela Reportagem relataram problemas com o estigma. “Eles nos chamam de vagabunda, prostituta. Eu enfrentei muito isso na escola”, comenta Daiana Martins, de 20 anos. Segundo ela, pensam que os índios são pessoas que matam, roubam. Fato que ela acredita ser contraditório ao que as páginas da História nos dizem.

“A invasão de terras indígenas vem do surgimento do Brasil. Nosso país nasce a partir dessa prática colonialista. E por ser tão antiga, muitos de nós a naturalizamos, não achamos tão grave. Somos educados na escola, pela mídia e pelo cinema, que índios são selvagens e atrasados. A partir desse pensamento, uma parcela expressiva de nossa sociedade não se identifica com os indígenas, povos originários desse território e dos quais descendemos” explica a antropóloga Vanessa Caldeira, de 44 anos, que trabalha com povos indígenas desde 1997. “Ao longo da história, a prática se perpetua e revela o quão ainda possuímos uma postura colonialista e racista de julgar o outro sobre quem ele é, para então legitimar a que ele deve ou não ter direito”, complementa.

Segundo a antropóloga, manter aspectos ancestrais em um mundo urbano é uma luta constante. “Quanto mais próximos estamos de outras sociedades, culturas e costumes, mais intenso é o intercâmbio entre elas. Os povos indígenas, como os demais povos tradicionais, muitas vezes, possuem maior resistência às mudanças. Mas isso não significa que são como supostamente achamos que eram em 1500”, explica. “Esse índio do cabelo liso, preto, habitante das florestas, falante de uma língua exótica, que existe no nosso imaginário, muitas vezes não se encaixa na imagem dos povos indígenas na atualidade. Os povos indígenas, nossos contemporâneos, viveram séculos de uma história colonial violenta, marcada por massacres, expropriações, escravização, preconceito, racismo e discriminação. Essa violenta história deixou marcas. Como povos resistentes, os indígenas lutam ainda para serem respeitados pelo que são e não pelo que gostaríamos que fossem”, finaliza.