Dos hospitais sem verba e da minha vida sem pressa

A pressa é inimiga da perfeição?

Ou

Quanto mais eu rezo, mais assombração me aparece?

Hoje o rádio tocou numa ressaca pós quarta-feira de cinzas. Para quem tem trinta anos, não tem filhos e se esforça em manter sua vida social ativa, o fígado em feriado é um órgão mais sagrado que cérebro em defesa de doutoramento.

É preciso sempre tratar bem de seu fígado!

Daí disseram assim: sem verba, hospitais inacabados de Haddad viram obra fantasma. Na Zona Norte, na Vila Brasilândia, nem esquerda, nem direita… e malandro que é malandro não pode se dar ao luxo de ter vida social.

A vida social carrega desencantos e desencontros. Muita gente se concentra em se convencer das razões que levam um sujeito a não enxergar seus próprios equívocos. O camarada é capaz de andar um longo trajeto em estrada contramão e gritar, para cada carro que vem em sua direção, o quanto a mãe é puta e o pai é corno.

Equívocos imperceptíveis. No canteiro de obras do hospital-por-fazer anunciam que já não há acidentes há dias. Mais de ano. Também, quem dera. Morresse um lá, só se for de susto ou teimosia.

‘’Peão boa gente se coloca a trabalhar de graça, na madrugada, para ajudar o pessoal da Brasa a ter atendimento médico de bosta pela SUS.’’

Morre. Trabalhando. Herói nacional.

Se for branco e diplomado, ganha até condecoração. Nome de rua. Estátua do tamanho do Borbagato. Daí voltar o Brasil algumas décadas. Mais de cinquenta moradias queimadas em Paraisópolis. Menina baleada por bala perdida na Vila Prudente. Polícia diz:

‘’Eu que não fui.’’

Então, quem foi?

Não sei. Sumiu. O Haddad de bicicleta, o Dória de gari.

O Haddad é bandeira branca na Vila Madalena. O Dória se viu na encruzilhada das restrições orçamentárias. Fala de honrar despesas, fala de herança. Fala dos benefícios que deveriam ser… enquanto isso, na estrada do Sabão, o povo escorrega que nem bobo em becos fantasmagóricos de causar inveja a muito thriller de terror.

A promessa: a comunidade terá até piscina no hospital. Enquanto isso, para o povo… nada. Nem pediatra, nem obstetra. Geriatra então… nascer e morrer são benefícios a serem conquistados. O zelador, administrador, chefe, pajé, cacique, seja-lá-o-que-for deve 255 leitos para Brasa. Leitos para nascer, leitos para morrer.

O ciclista deve estar a essa altura na serra do mar. Dizem que a vista de lá é assim ó… parnasiana.

De resto, São Paulo está doente, sem corujão da meia-noite para tanto espectador global.

Meu fígado… meu problema.

No mais, troque tua antena de TV. O mundo agora é digital