Educação financeira para crianças

Por Val Oliveira

Administrar as finanças é um grande desafio para a maioria das pessoas. Há quem não consiga gerir seu orçamento e acaba “metendo os pés pelas mãos”, afundando-se em dívidas. Manter uma relação amistosa com o dinheiro é algo que pode ser aprendido já na infância, mesmo porque, logo cedo, os pequenos já sofrem os apelos do mundo do consumo.

Dessa forma, especialistas incentivam a educação financeira para crianças, a fim de que na vida adulta a má gestão de capital não seja algo limitador de metas e sonhos, com menos estresse e mais qualidade de vida. Pensando em como instruir os pais na abordagem do assunto com os pequenos, o educador financeiro Uesley Lima preparou oito dicas sobre como inserir as finanças na vida de crianças de até 10 anos.

Poupança

Ensine a poupar de maneira planejada e materializada. “Quando der um ‘porquinho’ de cofrinho para elas, ensine-as a separar cada dinheiro, o destino de cada quantia. Assim, eles entenderão melhor que o dinheiro do ‘cofrinho um’ é para um gasto imediato. E o do ‘cofrinho dois’, para algo mais específico”, diz.

Crédito

Dá para ensinar noções de crédito emprestando algo do pequeno com data marcada para a devolução. “‘Me empresta tal brinquedo e eu te devolvo daqui a quatro dias’. Faça isso sempre de forma lúdica, frisando a importância de que aquilo que tomou emprestado deve ser devolvido no prazo e, caso haja algum atraso, haverá certo grau de ‘punição’”, detalha.

Investimento

Diga aos pequenos que existem outras formas, além da poupança, de guardar ou fazer o dinheiro “esticar”. “Introduza a criança nesse universo, por exemplo, quando estiver lendo uma notícia. Mostre e explique o que é uma ação e quando passar perto de uma empresa grande, diga: ‘sabia que você pode ser dono dessa empresa, comprando um ‘pedacinho’ dela?’. Use blocos ou outros objetos simples para ilustrar suas explicações”, sugere.

Dinheiro

Deixe as crianças familiarizadas com as notas, moedas e cartões. Dessa forma, elas conhecerão as diversas maneiras de “meio de troca” usadas na aquisição de bens. “Ensine que quando o cartão é passado na ‘maquininha’, determinada quantia em dinheiro está saindo da sua conta. Familiarize sempre as crianças com esses conceitos”, indica.

Consumo

Quando querem alguma coisa, geralmente, as crianças não sabem exatamente como se dá o conceito de consumo. “A maior parte dos pais têm problemas com as crianças que querem compulsivamente alguma coisa. Como tirar o consumismo das crianças? Mostre a elas o que é o necessário e o que é compulsão. Use as propagandas da televisão como exemplo. Pegue o objeto principal da propaganda para ilustrar a ideia de compulsão e real necessidade”, discursa.

Preços

Todas as vezes que fizer uma compra, mostre o preço à criança. “Diga que aquilo que ela está consumindo tem um valor e precisa ser pago. Talvez você possa pensar que isso é chato de ser feito, mas lembre-se de que a educação financeira se aplica nesses conceitos”, fala

Renda

“Desde muito cedo você pode ensinar à criança que, para ter dinheiro, é preciso, na idade adequada, trabalhar, empreender, e que a profissão que ela seguir um dia vai render um dinheiro para que ela possa gastar”, afirma.

Administração de recursos

Para ensinar a gastar com parcimônia é preciso fazê-las pensar no que vão fazer com o dinheiro que recebem. “Isso vai criando valores na cabeça da criança, de como ela deve administrar os recursos que tem”, finaliza Uesley.

Regras para mesada

A criança passa a se familiarizar com o “mundo das finanças” quando passa a receber mesada, que pode não ter um valor fixo, mas é um “dinheirinho” que será controlado por ela. Aos pais ou tutores cabe ajudá-la nesta tarefa e, se achar necessário, estabelecer regras de acordo com sua realidade e a da criança.
Há cerca de três anos, um pai, que é juiz do trabalho, fez muito sucesso na internet ao divulgar as regras de mesada para seus filhos, Giullia e Vitor, que na época tinham oito e seis anos, respectivamente. Ele montou uma tabela com o regulamento para a mesada, na qual atribuía preço para cada atividade. Além do valor fixo, os filhos podiam aumentar os rendimentos caso executassem tarefas extras ou tivessem bom comportamento em determinadas situações como, por exemplo, enxugar a louça e ajudar o irmão. Por outro lado, com a tabela do ônus, as crianças perdiam dinheiro a cada “vacilo”.
Na época, o especialista em educação infantil, Álvaro Modernell, em entrevista ao Uol, disse não concordar com a forma de educação adotada pelo pai. “Quem deve educar os filhos são os pais, não o dinheiro. […] O que educa a criança é atenção, carinho, orientação, acompanhamento, dedicação, amor e exemplo”, disse.
Para o educador, esse sistema pode estimular a rivalidade, arrogância, monetização das atitudes, bem como incutir a ideia de que o dinheiro pode reparar falhas ou “pagar” a irresponsabilidade.
O juiz argumentou que o mundo é monetizado e que falhas como uma infração de trânsito, por exemplo, é punida com multa e que “a ideia da planilha não é substituir o afeto e a educação pela mesada, mas preparar os filhos para a vida adulta.”